Por nicolas.satriano

Rio - Assim como os outros filmes de Eduardo Coutinho, ‘Últimas Conversas’ tem uma proposta simples, mas vai muito além do que qualquer sinopse pode descrever. Podemos tentar resumir, dizendo se tratar de um documentário com estudantes do ensino médio, da rede pública de ensino do Rio de Janeiro. O que não seria mentira. Porém, esqueça isso. O que importa é como o diretor consegue sempre extrair depoimentos tão tocantes sobre a natureza desses jovens.

Uma das jovens que conversam com Eduardo Coutinho no filmeDivulgação

O choque de gerações é nítido já na primeira cena, quando é Coutinho, de 80 anos, quem aparece divagando na frente da câmera. O cenário se limita a uma sala praticamente vazia, deixando à nossa vista apenas a porta e a cadeira por onde passa cada entrevistado. Não precisa de mais. O cineasta parece ter o dom da conversa. Ele avisa que vai fazer perguntas idiotas, como se fosse um marciano e, assim, o papo começa. O passo seguinte é a transformação daquele desconforto inicial para ambas as partes em confissões íntimas que passam por racismo, bullying, preconceito, abuso de menores... e por aí vai.

No filme póstumo de Coutinho, é preciso destacar a atuação de sua montadora de longa data, Jordana Berg, que tocou o projeto com João Moreira Salles após a morte trágica do diretor, no início do ano passado (assassinado pelo filho esquizofrênico). Mas o documentário nada seria sem a maestria de quem tinha o dom de transformar o superficial no profundo e preservar intacta sua curiosidade pelo próximo, em suas nuances aparentemente mais banais. Como diz Coutinho em ‘Últimas Conversas’: “O que eu vou fazer se não filmar?”

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