Luis Pimentel: O Rio de A a Z - 10

O coração mais inspirado que já bateu na Vila fez silêncio no dia 4 de maio de 1937. Foi um maioral

Por O Dia

Luis Pimentel%3A O Rio de A a Z - 10Nei Lima / Agência O Dia

Rio - Prosseguindo com a série de verbetes afetivos sobre o Rio de Janeiro, hoje com as letras M e N:
Méier — Millôr Fernandes (verbete seguinte) nasceu no Méier, mais precisamente, “formou­se na Universidade do Méier”; o cantor, compositor e carioca de todos os becos João Nogueira também; Wilson Batista nasceu longe dali, em Campos de Goytacazes, mas dedicou ao bairro um samba que diz assim: “Você sabe eu sou do Méier / Não preciso da cidade pra viver...” Posto, entreposto e posição geográfica estratégica na topografia carioca, o Méier ombreia com o Lins e com o Engenho Novo, para defender o Rio com elegância e muita maestria. 

Millôr Fernandes — Um dos pais do humor brasileiro — também pai de Ivan Fernandes, irmão de Hélio Fernandes e primo da coleguinha Kamille Viola, aqui da casa — O guru do Méier caiu nos braços do jornalismo com 14 anos, na revista ‘O Cruzeiro’, onde fez de tudo o que se pode imaginar dentro de uma redação. Começou como contínuo e, ao abandonar a publicação, homem feito e jornalista dos mais respeitados, deixara criações marcantes como a coluna do ‘Vão Gôgo’. Participou de experiências marcantes na imprensa brasileira, como ‘O Pasquim’ — que ela ajudou a fundar —, em 1969, e revista ‘Veja’. Deixou­nos em 2012, e foi a vida inteira o Millôr entre os melhores. 

Nássara — Antônio Gabriel Nássara (1910­1996) — Criado em Vila Isabel, o chargista, caricaturista e compositor Nássara era vizinho e amigo de Noel Rosa (o verbete a seguir), de quem foi parceiro musical. Formado pela Escola Nacional de Belas Artes, seu traço inconfundível marcou época na imprensa brasileira, sobretudo nas páginas de ‘Última Hora’, antes da década de 60, e em ‘O Pasquim’, nas décadas de 70 e 80. Na MPB, Nássara teve, além de Noel, parceiros do porte de Wilson Batista, J. Rui, Haroldo Lobo, J. Cascata e Ataulfo Alves. Legou à alegria carioca várias canções e marchinhas antológicas ao cancioneiro popular, sendo as mais tocadas, até hoje, ‘Allah­la­ô’ e ‘Balzaquiana’. 

Noel Rosa — O grande carioca que o Rio e o Brasil aprenderam a amar e endeusar é autor de momentos sagrados da MPB, como ‘Conversa de Botequim’, ‘Pra que Mentir?’, ‘Pela Décima Vez’, ‘O Orvalho Vem Caindo’, ‘Silêncio de um Minuto’, ‘Feitio de Oração’, ‘X do Problema’ e de tantos, tantos outros. A primeira música foi gravada em 1928 (neste ano, do outro lado da linha do trem, Cartola, Cachaça e outros bambas estavam criando a Estação Primeira de Mangueira) e chamava­se ‘Ingênua’, uma valsa. Dois anos depois estourou com a irreverente ‘Com que Roupa?’ (Agora vou mudar minha conduta/Eu vou pra luta, pois eu quero me aprumar). Em 1931, ainda tentando conciliar as atividades de estudante de Medicina com as de compositor, cantor, boêmio e namorador inveterado, gravou mais de 20 músicas e viu seu nome consagrado, sobretudo por conta da divertida ‘Gago Apaixonado’ (Mu­mu­um­um­mulher/Me fi­fi­fi­zeste um estrago). O coração mais inspirado que já bateu na Vila fez silêncio no dia 4 de maio de 1937. Foi um maioral.

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