João Pimentel: Para que e para onde?

Tenho essa sensação de que viajar é bom, muito bom, mas que de alguma forma é como um filme

Por O Dia

Rio - Em seu ‘Poema jet-lagged’, o poeta Waly Salomão, com quem tive o prazer de dividir alguns bons momentos, desanca em versos a nossa crendice de que navegar é preciso e viver não é preciso, herança de nossos bravos descobridores, que mais tarde embarcariam seus reis e seus nobres como foragidos de seu próprio país. “Viajar, para que e para onde se a gente se torna mais infeliz quando retorna?/ Infeliz e vazio, situações e lugares desaparecidos no ralo/ ruas e rios confundidos”. 

João Pimentel%3A Para que e para onde%3FDivulgação


Tenho essa sensação de que viajar é bom, muito bom, mas que de alguma forma é como um filme, como uma ficção muito distante da realidade e que, com o tempo, vira um emaranhado de imagens misturadas, de igrejas e rios e gentes e ruas e parques e bares.

Tenho duas imagens muito nítidas relacionadas a viagens da minha infância. A primeira foi em São Paulo, onde meu pai foi concorrer em um campeonato de vela. O ano, provavelmente, era o de 1976, o da novela ‘Anjo mau’, com Susana Vieira no papel da babá Nice. A música tema era ‘Meu Mundo e Nada Mais’, de Guilherme Arantes. Estávamos eu, minha mãe e meu irmão no alojamento do Iate Clube Santo Amaro, na beira da Represa de Guarapiranga. Meu pai velejava. Em algum momento, subi para pegar alguma coisa no quarto e, em um rádio que por descuido ficou ligado, ouvi a introdução do piano e as frases iniciais:

Quando eu fui ferido/ Vi tudo mudar/ das verdades que eu sabia”. Não sei por que eu sentei e chorei. Chorei muito. Quase sequei. Até hoje tento entender o motivo de tantas lágrimas. Que tudo um garoto de seis, sete anos viu mudar? 

A outra foi na volta de uma viagem a Manaus. Saindo da casa da minha avó, ouço ‘O Portão’, de Roberto e Erasmo Carlos. Novamente me debulhei. Mas aí eu já era um homem de nove anos! Até eu entrar em casa e meu cachorro me sorrir latindo, aquela canção não saiu da minha cabeça. E até hoje continua lá sempre que eu volto para casa de algum canto.

Sempre sofri com viagens. Por um lado a eterna sensação de que nunca mais eu vou voltar àquele lugar, àquelas pessoas, àqueles cheiros e sons. Por outro, o momento em que minha casa me chama de volta, os amigos, a praia, o samba, o Flamengo.

Por exemplo, minha viagem recente a Porto Alegre. Estava meio desanimado, não era hora de sair daqui, mesmo que por quatro dias. Meu coração ficou, eu fui. Mas foi só chegar, caminhar sozinho pelas ruas desconhecidas com a certeza de que nada nem ninguém interromperia meus devaneios, sentir novos cheiros, outro clima, raros sabores e, pronto, me apeguei. 

E reencontrei amigos músicos, fiz novas e grandes amizades — sim, porque elas podem surgir em pouco tempo, é preciso saber identificá-las — e já estava, bah, trilegal, totalmente adaptado ao gauchês. Até que, barbaridade!, era hora de voltar. Então me senti novamente menino, entre o partir e o porvir, sentado no chão, chorando pelo ruir das verdades que eu sabia. Mas eu voltei, agora pra ficar, porque aqui é o meu lugar. Afinal, viajar para que e para onde?

Últimas de Diversão