Luis Pimentel: Quem tem um sonho não dança

Formados pelo Dançando Para Não Dançar estudam e trabalham em escolas ou grupos de balé em diversas partes do mundo

Por O Dia

Rio - Em 2005, juntamente com o cartunista Nani, fiz um trabalho que me trouxe muito orgulho e alegria: um livro para contar a história dos dez anos de existência de um projeto carioca que já se espalhava pelo mundo, o Dançando Para Não Dançar, um esforço, a princípio solitário, da bailarina e professora Thereza Aguilar. Ex­aprendiz de um ícone dessa arte, Tatiana Leskova, Thereza já possuía, quando resolveu dividir a sensibilidade e conhecimentos com meninos e meninas carentes do Rio de Janeiro, especializações na Staatliche Ballettschule Berlin, na antiga Alemanha Oriental, e em Havana, no Balé de Camaguey e no Balé Nacional de Cuba.  

Luis Pimentel%3A Quem tem um sonho não dançaDivulgação


A convivência com povos e artistas de países socialistas impulsionou a professora a subir primeiro os morros de Copacabana, para instalar o Dançando nas comunidades do Cantagalo e Pavão­Pavãozinho. Isso num primeiro momento, porque depois o projeto foi à Baixada, atravessou a Baía, mapeou regiões onde a dureza do dia a dia não inspirava vocações; é duro pensar em arte quando se vive da mão para a boca. Mas Thereza e o grupo de artistas e profissionais liberais que foram se deixando contagiar pela ideia conseguiram plantar sementes e colher frutos admiráveis.

No momento em que o livro foi lançado, o Dançando Para Não Dançar já atendia a mais de 500 jovens e adolescentes, de mais de uma dezena de comunidades pobres. Os pequenos artistas se dividiam entre as aulas, o sonho e a realidade de famílias com renda média mensal de um a três salários mínimos. Algumas, nem isso nem nada. Hoje, dançarinos formados pelo projeto estudam e trabalham em escolas ou grupos de balé em diversas partes do mundo.

Contando com o apoio de alguns pais, a indiferença de outros, narizes torcidos de alguns e dificuldades de toda espécie, o Dançando não fugia à sua responsabilidade social. Escrevi na época que essa responsabilidade criava expectativa de vida e permitia um futuro mais digno para aqueles que já nascem perto de tentações como o dinheiro rápido do tráfico e outras atividades ilícitas.

Além da dança, o lindo projeto já oferecia — e continua oferecendo — aulas de música, arte e informática, bem como assistência médica, odontológica, psicológica e nutricional. Tudo isso graças ao trabalho voluntário de alguns e do apoio de empresas nacionais que chegavam e chegam junto.

Como dizem os versos de Cazuza e Frejat, “Quem vem com tudo não cansa” e “Quem tem um sonho não dança”. Neste 2015, o Dançando chega aos vinte aninhos, metendo bronca, democratizando e ampliando cada vez mais sua presença junto a quem precisa. Ainda e sempre à frente a brava Thereza Aguilar. Está de espetáculo novo, o balé ‘Salve São Francisco’, montado com alunos e fazendo apresentações gratuitas.
Desejo longa vida, ao sonho e à realidade!

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