João Pimentel: Ju, por onde anda você?

Será que alguém mantém o Ju vivo na internet? Será que por um motivo qualquer ele não quer mesmo se comunicar com ninguém?

Por O Dia

Rio - Das maravilhas do Facebook. Já faz uma data, uns três ou quatro anos. Eu voltava de uma caminhada pela Lagoa, quando passei em frente ao botequim que eu costumava frequentar quando morei no Jardim Botânico, até mais ou menos 2001, sei lá. Parei para conversar com o Seu Alberto, um velho conhecido, dono do estabelecimento, o Bar Rebouças. Perguntei por uma turma que eu não via há tempos até que cheguei ao nome de um parceiro, Juliano Barbosa, músico maravilhoso, que herdou o talento e o instrumento do pai, o também fagotista Aírton Barbosa, que, entre outras maravilhas, fez a introdução histórica do samba ‘Preciso me Encontrar’, no disco de Cartola de 1976, aquele que traz o mestre e Dona Zica na capa.

Fotos do músico Aírton Brabosa podem ser encontradas na internetReprodução Internet

Não sei se por distração ou por algum aborrecimento, a resposta veio seca: “Juliano morreu.” “Mas como?”, argumentei assustado, “estava tudo bem com ele, um cara novo, saudável”. “Não sei”, encerrou o assunto o português. Saí de lá atônito, não sei se cheguei a comentar com algum amigo. Mas o fato é que fiquei com aquilo na cabeça.

O tempo passou e outro dia alguém postou uma música ou um texto no Facebook e eu noto, surpreso que “Juliano Barbosa curtiu”. Foi como se alguém tivesse se levantado do caixão, como se o meu amigo que eu dava por perdido surgisse em uma esquina qualquer. Esfreguei os olhos como quem quer provar para si mesmo que não está sonhando. Então resolvi entrar na página dele. Algumas postagens esparsas em 2012, 2013, e, em 2014, um monte de mensagens de felicitações pelo seu aniversário não respondidas. Exceto uma, sem qualquer palavra, apenas com outro “Juliano Barbosa curtiu”.

“Será que alguém mantém o Ju vivo na internet? Será que por um motivo qualquer ele não quer mesmo se comunicar com ninguém?”, foram as questões imediatas em minha cabeça. “Já sei”, pensei, “vou mandar uma mensagem para ver se ele responde”. Então escrevi lá, não de forma muito confortável: “Ju, por onde anda você?” Como os dias se passaram e não obtive resposta, liguei para uma amiga, a Ana de Oliveira, durante anos spalla da Orquestra Sinfônica Brasileira. Ela resolveu me ajudar na busca ao Juliano.
Conversando com minha comadre Regina, outro dia, sobre o sumiço do amigo, descubro que ela tem um conhecido que perdeu um irmão em um acidente, e que, mesmo depois da terrível perda, sempre que posta alguma coisa, marca o nome do falecido, não sei se como forma de mantê-lo vivo ou de dar notícias do prosseguimento das coisas após a passagem dessa para uma melhor.

Comentei com outro amigo, o Marcelo, também parceiro do Juliano, e ele, que não sabia de nada sobre a possível passagem, lembrou de uma matéria, em um site inglês, sobre um menino que disputava um joguinho de corrida com o pai até a morte deste. Dez anos depois, ele resolve abrir o jogo e vê que o recorde da corrida ainda era do pai, e que, por isso, o nome dele permanecia como um dos competidores, com o mesmo traçado e tempo da marca histórica. Então ele volta a jogar, mas, como forma de manter o pai vivo no jogo, sempre evitou quebrar seu recorde.

Em meio a esses devaneios, chega a resposta da Ana: “Oi, Janjão, perguntei para a vice-presidenta do sindicato dos músicos e ela não ouviu falar nada, mas pelo que vi ele vive muito bem em Pernambuco, Bom Jardim, com um projeto de formação musical! Dá uma olhada, tem uma foto dele regendo uma bandinha no dia 11 de maio.”

Pesquisando pelo nome da cidade, vejo a tal foto, e o velho amigo feliz, exercendo o papel divino que lhe foi destinado. Descubro que Bom Jardim é a cidade natal de seu pai, que partiu cedo, aos 38 anos, em 1980. Talvez ele esteja regando as flores deixadas pelo Aírton, certamente plantando novas sementes. Mas o fato é que eu vou passar no botequim e dar uma bronca daquelas naquele portuga.

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