Kleiton & Kledir põem escritores para compor em novo projeto

Em ‘Com Todas as Letras’, dupla canta letras inéditas de autores gaúchos como Caio Fernando Abreu, Luis Fernando Verissimo e Martha Medeiros

Por O Dia

Rio - ‘Brinque como quiser. Corte, acrescente, monte, refaça ou não faça. É pra você nesta primavera de 95. Votos de muitos trígonos, inúmeros sextis. E viva Plutão em Sagitário. Urano em Aquário”.

O bilhete carinhoso do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu (1948-1996) a seu amigo Kledir acompanhava um texto que só agora, dez anos depois da dedicatória, o músico e seu irmão Kleiton transformaram na música ‘Lixo e Purpurina’. Ela deu a partida para ‘Com Todas as Letras’, combo de CD + DVD em que a dupla convida escritores conterrâneos para, pela primeira vez, encarar o desafio de escrever letra de música. Entre eles, Fabrício Carpinejar, Luis Fernando Verissimo e Martha Medeiros. 

Em posições invertidas%2C Kledir (E) e Kleiton%2C a sós Divulgação


“O texto do Caio foi o único aproveitado já pronto. Pedimos a todos letras de verdade, com palavras para serem ouvidas, não lidas”, conta Kleiton. “O Verissimo nos disse que passou a admirar mais os letristas, que viu que é mais fácil escrever cem páginas do que três minutos de música.” 

Os versos de Caio, só agora redescobertos pela dupla, surgem no disco cantados pelos dois com Adriana Calcanhotto. E trazem lembranças da era hippie dos anos 70, vivida por eles (“Panos indianos, haxixe marroquino/tanto lixo, tanta purpurina/e aquela menina que queria ir pra Calcutá”). “Fomos de uma geração que meteu o pé na jaca e fomos fundo em nossos sonhos. Sofremos muito, muitos de nós pegaram pesado. E o Caio talvez tenha sido um dos nossos companheiros que mais pegaram pesado. Talvez por isso muita gente se identifique com a intensidade dos textos dele”, acredita Kledir.

As canções foram feitas a partir de encontros com os letristas (intermediados pelo curador Luís Augusto Fischer). “Muita coisa nos surpreendeu”, diz Kleiton, citando ‘Olho Mágico’, que ganhou uma psicodélica letra de Verissimo, e ‘Piscina’, escrita por Leticia Wierzchowski, de ‘A Casa das Sete Mulheres’. “Ela escreveu sobre as aulas de natação que faz com o filho. E deve ser a primeira letra de música sobre natação do mundo”, brinca. 

Daniel Galera (de romances como ‘Barba Ensopada de Sangue’) contribuiu até com a melodia de ‘Vinte e Oito Escovas de Dente’. “Ela foi feita a partir de um tema instrumental que fiz em 2003”, lembra o escritor. Fabrício Carpinejar criou a irônica ‘Cansado de Ser Feliz’, e foi outro que surpreendeu a dupla. “Descobrimos que ele compõe compulsivamente. Ele nos mostrou uma letra enorme, dava para fazer cinco letras só com aquele material”, recorda Kleiton que, como o irmão, escreve também livros (lança em breve o romance ‘Kioto’). 

O projeto inclui ainda várias interpretações caligráficas das músicas (feitas por nomes como Cláudio Gil, Guilherme Menga e o coletivo Fiz Com Giz), disponibilizadas no site da dupla.

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