Luiz Antonio Simas: Meu São João

São João para mim sempre foi a festa de Jackson do Pandeiro, miudinho que pintava o sete feito Mané Garrincha

Por O Dia

São João para mim sempre foi a festa de Jackson do Pandeiro%2C miudinho que pintava o sete feito Mané GarrinchaAgência O Dia

Rio - Voltei recentemente de uns dias no Nordeste, terra da minha família materna, e reparei que as festas juninas de várias cidades da região ultimamente têm, dentre outros salamaleques, camarotes vips, para quem quer, segundo uma propaganda, “curtir de forma selecionada” o fuzuê. Vi também o anuncio de um São João “all inclusive” nas cercanias de Salvador.

Fiquei aperreado, como meu avô diria. Logo São João, a festa dos pequeninos, das estrelinhas de papel, dos balões cheios de alguma saudade vaga, das fogueiras ardendo em esperança e melancolia bonita. Logo São João, a festa mais entranhada de um Brasil pobre de marredeci, festejo das musas de pés-rachados e fulô nos cabelos que, entre um serpenteio e outro nas quadrilhas, balançam os braços como se fossem asas secretas de alforriar os mundos.

São João para mim sempre foi a festa de Jackson do Pandeiro, miudinho que pintava o sete feito Mané Garrincha, camisa sete, e cantava indo e voltando da linha de fundo até, subitamente, bater em gol ou mandar a redonda pro fuzuê da pequena área. Jackson era versado no gogó e em seus atalhos, como o velho Pastinha fazia ao menear o corpo retinto no jogo de Angola; feito o Zé chegando das Alagoas e baixando na guma, de terno branco, lenço de seda e o escambau. São João era a festa dele.

São João foi a festa que fez de Luiz Gonzaga o orixá do Brasil. Lua foi o país entranhado e os seus chamamentos, voz da seca e florada no pé da serra, canto ancestral e ancestral do canto, egungun brasileiro, entidade poderosa do povo de cá, totem, cerâmica marajoara, boneco de Vitalino, santo de andor e exu de rua — arrepiando no fole da sanfona que nem Seu Sete da Lira, violeiro sedutor, faria melhor.

Eu penso em São João e logo vem a saudade de João do Vale, senhor de xotes bonitos, feito o canto grande da estrela miúda que alumeia o mar - lição que, cada vez mais desconfiado de estrelas imensas, tento aprender e reproduzir nos meus afetos e ofícios.

São João é o santo do carneirinho, menino bom que reconforta em festa, na noite imensa, as solidões compartilhadas com as estrelas.Junho é o mês dele — e de Pedro e Antônio — e eu festejarei, nos anarriês imaginários, sem camarotes suntuosos, minhas saudades.

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