Luis Pimentel: Botafogo também dá samba

Sustentando a tradição do samba carioca, de ser música popular a custo baixo, a roda transcorre em clima de perfeita harmonia

Por O Dia

Rio - Muito antes de Donga e Mauro de Almeida espalharem o aviso do chefe de polícia (e também da folia) de que na Carioca havia uma roleta para se brincar, o Rio de Janeiro dava samba. ‘Pelo Telefone’ foi composto há pouco mais de 100 anos e lançado em 1917, mas àquela época já se fazia batuque e pagode em alguns morros da cidade, em algumas encruzilhadas do subúrbio e em certas vielas apertadas da Praça Onze — onde tias baianas caprichavam nas moquecas e sobrinhos cariocas de sapatos brancos espalhavam a boca de sino para ventilar melhor as canelas. Um pouco antes da balança onde os malandros iam sambar, que o Cartola eternizou, e de ser reconhecida uma certa cabrocha lá no Estácio de Sá, “Que encanta e maltrata, do bloco Deixa Falar”, disputada nos versos de Ismael, Bide e Heitor dos Prazeres. 

Luis Pimentel%3A Botafogo também dá sambaDivulgação


Até hoje o Rio dá samba, com suas rodas que reverenciam o gênero de Oswaldo Cruz à Lapa, do Trapiche à Copacabana do Bip do Bip, passando naturalmente pela Glória, Catete e... Botafogo. Ali que se instala, sempre no segundo e último sábado de cada mês, em um bar (pelo menos não é mais um boteco de grife) chamado Belmiro, a aglomeração de amantes da boa música para ouvir o que de melhor os melhores compositores do bairro compuseram. E não são poucos, pois em Botafogo nasceram ou viveram, beberam, festejaram a vida, se espalharam e criaram obras-primas nomes como Mauro Duarte, Walter Alfaiate, Niltinho Tristeza, Paulinho da Viola, os irmãos Mical e Miúdo, Zorba Devagar, Annunciato e tantos outros bambas.

O Samba de Botafogo (fui lá no último encontro, estou com repertório e nomes do time fresquinhos na memória), já quase Humaitá, é comandado por Paulinho do Cavaco, ótimo músico e compositor gravado por tanta gente boa, acompanhado pelo delicioso grupo Tocando a Vida (cuja formação básica é esta: violão: Gomide e PC; cavaquinho e voz: Paulinho e Marquinhos Duarte; pandeiro: Jenner Menezes; tamborim: Mário Neto; cuíca: Zé Carlos; surdo: Vinícius) e contando sempre com canjas musicais de Eliane Duarte (filha de Mauro e irmã de Marquinhos) e Celso Lima, entre outros.

É bonito de se ver. Sustentando a tradição do samba carioca, de ser música popular a custo baixo, a roda transcorre em clima de perfeita harmonia, serviço de bar com direito a cerveja e pasteizinhos caseiros a preço honesto, muita gente escancarando a garganta para acompanhar as músicas e lua generosa banhando o cruzamento etílico entre o conde (de Irajá) e o visconde (de Caravelas). Como diz o belo samba que Paulinho da Viola e Aldir Blanc fizeram para Walter Alfaiate lançar em seu primeiro disco, relembrando vultos do bairro­estrela solitária (Osvaldo Tintureiro, Alcides do Cantinho da Fofoca, Pica Fumo, Jair Cubano...), “tanto fazia ser em Botafogo ou no Humaitá”.

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