Ricardo Cota: Stanley Kubrick ilumina as telas do Estação

‘2001’ deve ser apreciado como uma obra abstrata, e não apenas como clássico da ficção científica

Por O Dia

Rio - Começa amanhã, no Estação Net Botafogo, um dos eventos cinematográficos mais importantes do ano: a mostra integral dos filmes do cineasta Stanley Kubrick. Difícil escolher, dentre tantas obras-primas, uma que mereça destaque. Como bem definiu outro gênio da sétima arte, Martin Scorsese, no prefácio do livro ‘Conversas com Kubrick’, do crítico francês Michel Ciment, “ele era único, na medida em que, a cada novo filme, redefinia esse meio de expressão e suas possibilidades. Mas era mais que um simples inovador técnico. Como todos os visionários, ele dizia a verdade. E, por mais que fiquemos à vontade com a verdade, ela sempre provoca um choque profundo quando somos obrigados a encará-la”. 

‘2001%3A Uma Odisseia no Espaço’ é uma das obras-primas de KubrickReprodução Internet


Alguns filmes, como ‘Dr. Fantástico’ e ‘Laranja Mecânica’, por exemplo, fazem parte de qualquer antologia da história do cinema mundial. Como o espaço é curto, escolhi aquele que na minha opinião é o seu clássico definitivo: ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’. Um filme que 37 anos após seu lançamento permanece como uma das mais fascinantes experiências audiovisuais já vistas. Deve ser apreciado como uma obra abstrata, aberta às mais variadas interpretações, e não apenas como clássico da ficção científica.

Em ‘2001’, Kubrick fala da civilização e do seu desejo básico de superar-se rumo a um ponto obscuro, que tanto pode ser o infinito como o paralisante monolito negro, impávido enigma da existência. Dividido em três partes, o filme retrata desde os primórdios da Idade da Pedra até o conflito moderno entre homem e máquina, passando pela conquista do espaço.

O prólogo guarda a maior elipse da história do cinema, que se resume ao simples corte de um osso para uma nave interestelar. A sequência, por si só antológica, ilustra bem a diversidade de significados existentes em cada imagem de ‘2001’. Ao mesmo tempo que se funde com a ideia do progresso tecnológico, o osso é também um emblema da guerra e da destruição. O paradoxo entre violência e progresso por sinal se estende até o último bloco do filme, quando ocorre a batalha entre o astronauta David (Keir Dullea) e o computador Hal 9000. Em resumo, não há avanço sem conflito.

Mas ‘2001’ é sobretudo uma demonstração de como o cinema pode ser mais do que um veículo para narrar histórias convencionais. Kubrick utilizou poucos diálogos, minimizou o verbo, na tentativa de levar o espectador o mais próximo possível da experiência introspectiva que só a música possibilita. Foi tão bem-sucedido que, depois de se assistir a ‘2001’, é praticamente impossível supor que clássicos como ‘Danúbio Azul’ e ‘Assim Falou Zaratustra’ não foram compostos especialmente para essa obra-prima, cuja projeção, em cópia nova digitalizada e remasterizada, é um programa obrigatório para os admiradores da sétima arte.

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