Luiz Antonio Simas: Currículo vira-latas

Sou um historiador de irrelevâncias e é com elas que me importo. Enquanto a grande História desfila nos parlamentos, a vida continua na cidade

Por O Dia

Rio - Não possuo espírito de liderança, mas admito, dependendo do currículo da entidade, ser liderado por espíritos. Também não entendo nada de gestão empresarial, não pretendo exercer o empreendedorismo e me identifico com pessoas destituídas de competitividade.

Não uso ternos e gravatas, a não ser em desfiles de escolas de samba (quando for fantasia de ala) e enterros. Esse último caso se aplica apenas em virtude do desejo expresso do morto, firmado em cartório ou revelado a algum médium de mesa espírita.

O caminho das Índias%2C afinal%2C me leva a uma Calicute diferente%2C que tem balcão%2C azulejos%2C copos americanos%2C linguiças e ovos coloridos tirando onda de especiariasAgência O Dia

Sei tocar tambor com alguma competência. Evito palestras motivacionais e reuniões de condomínio, gosto de beber cerveja e não bebo destilados por ordem do caricaturista Cássio Loredano, que recebeu a mesma ordem do grande Nássara.

Não tenho carro; conheço relativamente bem o repertório de Luiz Gonzaga; gosto de samba, mas não sou sambista (faltam-me alguns fundamentos, dentre os quais a arte de sapatear no miudinho). Assisti a Vila Isabel ganhar o Carnaval de 1988 com ‘Kizomba’ e acho que isso me qualifica para alguma coisa. Queria morar em Pasárgada ou na Tupinicópolis do Fernando Pinto, mas ando me virando no Rio de Janeiro mesmo.

Sou um historiador de irrelevâncias e é com elas que me importo. Enquanto a grande História desfila nos parlamentos, a vida continua na cidade, entre uma ou outra rajada de tiros, suspiros dos namorados e um palavrão bem colocado para lamentar um gol perdido.

O que se passou no Mangue na República Velha, entre garrafas de cerveja, conhaques vagabundos e delírios suicidas, me interessa mais que as tramoias urdidas nos gabinetes. Um samba do Noel me instiga mais como documento a respeito da década de 1930 do que um discurso do Ministro do Trabalho. O voo imaginado de Besouro numa roda de capoeira diz mais sobre o Brasil que me interessa como historiador que o andar marcial de um marechal de campo.

Eu sinto a pulsação do tempo nos fraseados de Pixinguinha e nas cachaças ofertadas ao santo. Minha caravela não cruza oceanos, mas navega nas águas imundas do Rio Maracanã, o rio da minha aldeia. O caminho das Índias, afinal, me leva a uma Calicute diferente, que tem balcão, azulejos, copos americanos, linguiças e ovos coloridos tirando onda de especiarias.

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