Grafiteira Anarkia Boladona estreia exposição com obras que são sucesso nas ruas

Artista Panmela Castro tem a maçã como assinatura na mostra ‘Eva’ e conta que até ameaça de morte recebeu quando fazia um de seus trabalhos nas ruas

Por O Dia

Rio - Se você é daqueles que reparam nos grafites espalhados pela cidade, provavelmente já viu uma das maçãs de Panmela Castro por aí. O desenho, que virou marca registrada e quase uma obsessão para a grafiteira, mas conhecida como Anarkia Boladona, começou há cinco anos através de um questionamento, que virou indignação, para depois se transformar na arte que gerou extremos: uma ameaça de morte e a exposição ‘Eva’, que a Galeria Scenarium, na Lapa, abriga partir de hoje. 

Panmela Castro com algumas das telas de ‘Eva’Maíra Coelho / Agência O Dia


“Eu tinha um namorado com família evangélica. Lembro que eles colocavam a culpa de tudo na Eva, por ter mordido a maçã”, conta Panmela. Daí por diante, isso não saiu mais da cabeça da grafiteira. “Comecei a refletir sobre a construção do feminino e dos mitos e tabus que rodeiam o tema”, diz ela, que passou a colocar uma maçã junto às figuras femininas que pinta pelos muros.

A fruta virou uma espécie de assinatura, além de simbolizar a personagem, que, segundo a Bíblia, foi a primeira pecadora da história da humanidade. “O que mais me chamou a atenção na Eva é que, aqui, temos uma educação muito cristã. Mas penso nela não por uma questão religiosa, meu objetivo é pensá-la como figura de transgressão, daquela mulher que não aceita ser submissa”, explica.

Só que a luta feminista de Anarkia tem sido encarada como afronta por alguns. Recentemente, ela passou a pintar uma mordida na maçã, o que faz o desenho lembrar uma vagina. Ao usar Eva e a maçã-vagina para cobrir um antigo grafite com a imagem do Bezerra da Silva — também de autoria dela — na Rua Joaquim Silva, na Lapa, foi até ameaçada de morte. “Uns caras de lá foram me procurar e falavam o tempo todo: ‘Você pintou uma xer... em cima do Bezerra, isso é uma falta de respeito.’ Eu dizia: ‘Gente, aquela vagina ali não tem conotação sexual nenhuma!’”, explica a artista, que não conseguiu dialogar e viu um balde de tinta ser jogado sobre o desenho.

Como resposta, Panmela pichou em cima do borrão que ficou na parede: “Ninguém respeita as mulheres nesse país! Bando de machistas!” Em seguida, lançou uma enquete na internet com três alternativas na última semana: refazer o grafite do Bezerra da Silva, manter a pichação como estava ou pintar uma nova Eva. “Ganhou a última opção. Mas não vou renovar o grafite, pois tenho medo das ameaças que recebi”, desabafa ela, que mostra todo o processo dessa pintura através de fotos na exposição.

“Acho válido que todos que quiserem usem aquele muro daqui para a frente para dizer o que acham sobre isso”, convida. Enquanto isso, na Galeria Scenarium, 14 obras em spray óleo sobre tela, além de fotografias, instalações, desenhos e vídeos, garantem às Evas de Panmela um templo sagrado até o dia 19 de agosto. “Hoje estamos superemancipadas segundo a Constituição. Mas, na percepção geral das pessoas, a mulher ainda não é igual culturalmente”, analisa Anarkia, que vê o estigma histórico da mulher perdurar. “Começo até a pensar em uma queda dos gêneros, e não só nessa questão de homem e mulher”, filosofa.

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