João Pimentel: Um ser humano

Zeca, ao contrário de muitos artistas que eu admirava, nunca me decepcionou como cidadão, como um cara de caráter

Por O Dia

Rio - Eu ainda era um repórter iniciante em 1995, faz tempo, quando fui fazer uma matéria com Zeca Pagodinho. Ele havia acabado de lançar o disco ‘Samba pras Moças’, para mim o marco do seu renascimento como sambista, uma obra-prima que seria sucedida, no ano seguinte, pelo não menos genial ‘Deixa Clarear’. Então me mandei com o motorista, o fotógrafo e minha inexperiência para Xerém. Eram outros tempos, Zeca ainda circulava livremente por lá numa charrete sem ser incomodado. Parava no bar do Geraldo, ia à feira beber cerveja cercado dos seus amigos Espingarda, Baixinho, os gêmeos e outros que não me lembro o nome. 

João Pimentel%3A Um ser humanoDivulgação


Zeca nos recebeu, “disse que ia matar um cabrito” e eu me lembrei do samba do Geraldo Pereira: “onde tem cabrito eu tô”. Então nos mostrou onde tinha uma cerveja e entrou em casa. Sumiu. Saiu para ver a vaca de um vizinho, um terreno que estava à venda, para beber uma na esquina e eu ali, parado. Passei o dia inteiro para conseguir algumas frases soltas.

Não era uma matéria sobre o disco, mas sobre o personagem e sua rotina. Saí de lá com a impressão que não conseguiria escrever nada. Mas acabou que a matéria saiu com um título do qual me orgulho: ‘São Francisco de Xerém’. Falei do amor do Zeca pelos bichos, pelas natureza e pelas crianças.

Na vez seguinte em que fui entrevistá-lo, já menos otário, entrei, cumprimentei o dono da casa, peguei a cerveja no lugar de sempre, e percebi que iria começar novamente o périplo do Zeca. Não lembro sobre o que era a matéria, mas tinham outros repórteres andando de um lado para o outro atrás dele. Chamei minha equipe para jogar uma sinuquinha. Ali ficamos, entre goles e tacadas, até que o anfitrião se aproximou de mim: “Você não vai me entrevistar?”

A partir deste momento, me deu uma entrevista ótima, matou minha curiosidade sobre diversos temas. Disse que tinha um pato chamado Janjão, coincidentemente o meu apelido, que carregava a tristeza de andar meio afastado de Jovelina Pérola Negra quando esta morreu. Falou sobre as andanças com Arlindo Cruz e sobre a vida na roça de Xerém.

Com o tempo, estabelecemos uma ótima relação, a ponto de ele chegar numa entrevista coletiva, na qual eu não estava, e perguntar por mim. Coisa pequenina, mas simbólica. Certo dia, ele brigou comigo por alguma coisa que eu escrevi. Não lembro bem o que era, acho que alguma crítica que eu fiz sobre alguém que ele gostava. Fiquei chateado, também sou turrão quando me acho injustiçado, e achei que não deveria mais fazer matérias com ele, que outro repórter deveria cumprir esse papel. Hoje vejo que fui infantil, pouco profissional.

O tempo cuidou de apagar esse desentendimento bobo, mas nunca mais tivemos qualquer proximidade, o que não diminuiu em nada minha admiração. E isso é relevante porque o Zeca, ao contrário de muitos artistas que eu admirava, nunca me decepcionou como cidadão, como um cara de caráter. Papo reto como na linguagem da malandragem.

Confesso que à distância achava que ele tinha mudado. A Barra que ele detestava pela ausência de botequins virou seu habitat. Xerém parecia cada vez mais distante. Será que a vida de celebridade havia engolido o meu ídolo? Reencontrei o Zeca no depoimento que ele prestou ao Museu da Imagem e do Som há algumas semanas. Ali estava ele, o mesmo homem de bem que foi socorrer as vítimas das chuvas em Xerém, que levava seus filhos para distribuir roupas e brinquedos no Dia das Crianças, o menino de Del Castilho e Irajá, o filho de Seu Jessé.

Na faixa-título do seu disco mais recente, ‘Seu Humano’, está lá: “Eu tenho esperança e fé no ser humano”. Na mensagem final do seu depoimento ao MIS, ele reforçou: “O que eu tenho a dizer para as futuras gerações? Que elas saibam que por aqui passou um ser humano.” Eu sei, Zeca, eu sei.

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