Luiz Antonio Simas: Sambas e sambistas

Os que reinventaram a vida no escuro — sambistas! — me ensinaram assim a viver na claridade do sol

Por O Dia

Rio - Não sou sambista. Há quem cante samba, componha, estude, escute. Ser sambista, todavia, é outro papo. O buraco é mais embaixo e demanda fundamento, tempo e responsabilidade. Mais do que gênero musical ou bailado coreográfico, o samba é elemento de referência de um complexo cultural que dele sai e a ele retorna. No samba vivem saberes que circulam: formas de apropriação do mundo, construção de identidades comunitárias, hábitos cotidianos, jeitos de comer, beber, vestir, enterrar os mortos, celebrar os deuses e louvar os ancestrais.

Os que reinventaram a vida no escuro — sambistas! — me ensinaram assim a viver na claridade do solAgência O Dia

Há, todavia, quem se aproprie do samba para submeter sua complexidade aos limites da indústria cultural (incluídos aí os meios de difusão de massa e o Carnaval, cada vez mais reduzido ao mero entretenimento; distante da potência de uma festa de reinvenções do mundo). Há que se descarnavalizar o samba. Ele é de vivências cotidianas.

Não sou sambista. Também não sou — a despeito de ter lançado livros sobre o tema — pesquisador do samba. Prefiro me definir como um pescador; fascinado pela dimensão oceânica do batuque que une as praias da África e do Brasil.

Reverente aos mestres das agulhas de marear, lanço no universo do samba minha rede para pescar peixes mais próximos da superfície e saboreá-los, na brasa, entre cervejas geladas e cangibrinas quentes. É com essa perspectiva e reverência pelo samba que dou aos leitores duas dicas. A primeira é a seguinte: o mestre Wilson Moreira, um dos grandes da história do samba, está em campanha para obter os recursos necessários para a gravação de um CD com sambas inéditos. É só procurar na internet que o projeto está lá para quem quiser divulgar e contribuir.

A outra é sobre o CD ‘E Toda Dor Que Sofri Será Canção’, novo trabalho da cantora Simone Lial, lançado pela gravadora Alujá. Há tempos eu não escutava um trabalho tão bom e corajoso, investindo em sambas inéditos e dialogando dinamicamente com a tradição; com arranjos e repertório que apontam para a potência criadora que o samba pode ter hoje.

E assim sigo no samba. Nele pesco meu sustento, manifesto a alegria de viver e educo meu filho. Expresso minhas dores em suas águas. Os que reinventaram a vida no escuro — sambistas! — me ensinaram assim a viver na claridade do sol.

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