Luiz Antonio Simas: Outros hinos

'Acho que hino em jogo de clube é como canto gregoriano em baile funk e ‘Parabéns a Você’ em velório. Não me parece adequado'

Por O Dia

Rio - Outro dia reclamei de um ritual que virou comum antes de jogos de futebol do Campeonato Brasileiro: os times perfilados escutam o Hino Nacional. Sendo sincero, acho que hino em jogo de clube é como canto gregoriano em baile funk e ‘Parabéns a Você’ em velório. Não me parece adequado. 

Luiz Antonio Simas%3A Outros hinosDivulgação


Pois eu fui falar isso em uma conversa de bar e acabei acusado de não ser patriota. Neste sentido, eu não sou mesmo. O hino toca e eu chupo picolé, enquanto aguardo a bola rolando. Se me perceberem com a mão no coração, corram para me ajudar, porque é infarto mesmo.

Não sou patriota e nem quero ser. Meu coração, todavia, balança numa redinha da terra da minha avó, lá nos cafundós das Alagoas. Vez por outra escuto ainda os pregoeiros de Caruaru e sinto o cheiro do fumo de rolo, exatamente como da primeira vez que cruzei a feira nos braços do meu pai.

Me encanto com o toque dos ijexás e me assombro com os transes dos caboclos de pena no toque da muzenza. As mãos calejadas que seguram a corda de Nossa Senhora de Nazaré produzem em mim a inarredável sensação de pertencimento. Círio e recírio remendando a vida.

Fico arrepiado quando o repique anuncia a entrada da bateria, o sax fraseia Pixinguinha e o baque virado dos tambores misteriosos desperta a hora grande. Alargo meu mundo quando o rum vira para Oyá domar o afefé e pairar, soberana, entre relâmpagos, sobre o resto do mundo.

Em alguns dias de bode desconfio que a humanidade fracassou. Basta, porém, uma simples canção praieira de Caymmi para que se restaure em mim a espantosa crença na vida. Basta um samba de Noel, um partido de Aniceto, uma peleja do cego Aderaldo e um verso de Zé Limeira. Basta a Légua Tirana de Luiz Gonzaga para que a beleza intangível da romaria ao Juazeiro me reconcilie com o Espírito do Homem, aquele mesmo que se perdeu na noite que não se acaba.

A minha terra, bem distante do patriotismo tonto, último reduto dos canalhas, é o delírio que me conforta. É aquilo que ilumina meus olhos, rega meu peito e acaricia as minhas palavras, para que eu conte as histórias que ouvi do meu avô ao meu filho, no contínuo descortinar da vida; arte maior de tremer o chão com o ixan sagrado dos eguns e reverenciar o mistério intuído dos nossos ancestrais.

Últimas de Diversão