Por tabata.uchoa
Para quem conhece e ama a obra dos três%2C a exposição é uma delícia. Para quem não conhece%2C também%2C pois é uma bela maneira de conhecer Agência O Dia

Rio - O Rio de Janeiro se orgulha de ter abrigado, entre esses mares e montanhas, inúmeros e geniais cronistas (filhos da terra ou adotados), que tiveram a cidade como sugestão emotiva ou cenário. Basta lembrar que aqui viveram e escreveram, entre outros, João do Rio, Lima Barreto, Machado de Assis, Aníbal Machado, Luís Martins, Marques Rebelo, Nelson Rodrigues, Elsie Lessa, Fernando Sabino, Clarice Lispector... A lista não tem fim, e no meio dela estão o carioca da Rua do Resende Mário Lago (1911—2002), o capixaba de Cachoeiro do Itapemirim Rubem Braga (1913—1990), e o paulistano João Antônio (1937—1996).

Vida e obra desses três grandes artistas podem ser conhecidas ou revistas numa das exposições mais deliciosas entre tantas que estão por aqui no momento. Chama­-se ‘O Rio de Mário, Rubem e João’ e está no Arte Sesc do Flamengo, naquele casarão lindo da Rua Marquês de Abrantes. Livros em edições diversas, reproduções de jornais, objetos pessoais e de trabalhos, audiovisuais com lembranças e depoimentos, e até simulações afetivas como a mesa de bar preferida de João ou a xícara de cafezinho do Mário podem ser vistas.

Para quem conhece e ama a obra dos três, a exposição é uma delícia. Para quem não conhece, também, pois é uma bela maneira de conhecer.

Autor das mais delicadas, saborosas e bem construídas crônicas brasileiras em todos os tempos, Rubem Braga lançou sobre o Rio (especialmente o pedaço de Zona Sul até onde sua cobertura ipanemense alcançava) um olhar que ia da impaciência à admiração, da contemplação a nadadores solitários ou moças bonitas à poesia viajante nas asas de uma borboleta. Dividindo­se entre a arte e a política, o artista e cidadão Mário Lago, ator consagrado, compositor inspiradíssimo e quadro dos mais respeitados nas fileiras do Partidão, foi um carioca bacana, em todos os sentidos. Do seu apartamento na Rua Júlio de Castilho (onde o entrevistei para a revista ‘Bundas’, no ano 2000), olhava o Rio com generosidade e admiração, demonstradas em textos de sua obra literária composta por livros de contos, de poemas e de crônicas.

Autor de um dos mais belos contos da literatura brasileira (‘Malagueta, Perus e Bacanaço’), João Antônio conhecia o Rio, para onde veio trabalhar como jornalista, de cabo a rabo. Em suas crônicas publicadas em ‘Ultima Hora’, ‘Jornal do Brasil’ e ‘O Pasquim’, os bares, as bocas e as bocadas da cidade ganhavam tratamento especial.

Sobre o Rio, eles disseram: “É a cidade onde não se pede mais licença nem desculpas, vai­se em frente” (Mário Lago); “Sem mar, o Rio seria a capital da angústia” (Rubem Braga); e “Cidade-mulher que não precisa de joia para se enfeitar” (João Antônio).
Sem eles, o Rio teria sido menor, digo eu.

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