João Pimentel: Alfredito, o Rei de Havana

Entre professores, jornalistas e políticos, todos com a missão de compreender a vida do povo cubano sob o prisma do fim do embargo americano

Por O Dia

Diziam%3A ‘Alfredito%2C fica mais um pouco’. Até pizza eu servi para os turistas.”Divulgação

Rio - O Bip Bip é um reduto sambístico de Copacabana, bunker da melhor música brasileira e de gente que propõe um país melhor sob a bênção do Alfredo Jacinto Melo, o popular Alfredinho. Este pequeno grande homem é reconhecido pelos esporros que dá em quem atrapalha a música ou joga um cigarro no chão, mas, principalmente, pelo coração grande demais para o seu tamanho.

Era um domingo de junho. Fui lá para conversar com o amigo de muitos anos e esporros, quando ele me conta que iria para Havana com uma turma que incluía o jornalista e ex-guerrilheiro Cid Benjamin e o ex-deputado Milton Temer, outros dois amigos de longa data. Rapidamente me incluí no grupo, não sem que antes minha participação na viagem fosse avalizada por uma pequena votação, feita ali mesmo, na calçada da Rua Almirante Gonçalves. Aprovado, no dia seguinte comprei o pacote de oito dias. No sábado retrasado, dia 1º, partimos em um grupo de dez para a ilha. Além dos quatro já citados, o jornalista e professor Vitor Iório, Passarinho, Baiano, Mario de Oliveira, Zé Luiz, um amigo de Alfredinho dos tempos de Bangu e o jovem Pedro, filho de Passarinho. Enfim, a turma do Bip na ilha de Fidel.

Entre professores, jornalistas e políticos, todos com a missão de compreender a vida do povo cubano sob o prisma do fim do embargo americano, Alfredinho tornou-se o porta-voz da brasilidade. Com seu jeito franco, carismático e teatral pode-se dizer que tornou-se, por uma semana, o Rei de Havana. Não o personagem bizarro do livro de Pedro Juan Gutiérrez movido a rum e sexo, mas um rei improvável.

Alfredo não dava pitacos nas discussões políticas, apenas observava e quando a conversa esquentava, intervinha com sua voz rouca: “Agora é a vez de fulano falar. Beltrano, fica quieto”. No primeiro dia, na piscina do hotel, surgiu com uma camisa do Madureira em homenagem a Che Guevara, lançada em 2013, por conta dos 50 anos de uma excursão do tricolor suburbano à Cuba. Pediu uma abrideira, uma pizza — porque havia perdido o café da manhã —, e ficou por ali. Quando voltei de uma caminhada, ele ainda estava ali no maior papo e já tinha ganho o apelido de Lula. Até o fim da viagem, ele era o único de nós que era conhecido pelo “nome” entre os empregados do hotel.

Alfredinho, ao ouvir uma crítica sobre a praia de Varadero, indignou-se. “Quando fui para lá da outra vez, levei umas fitas de samba da Cristina Buarque. Os caras ficaram loucos, não me deixaram sair mais. Fomos até as cinco da manhã. Diziam: ‘Alfredito, fica mais um pouco’. Até pizza eu servi para os turistas.”

Monoglota, Alfredo era o único também que não arriscava uma palavra em portunhol. Segundo amigos, ele se faz entender com seu português e uma mímica que não quer dizer muita coisa até na Rússia. Convencido por Baiano, um fã de Ernest Hemingway, a conhecer a casa onde o escritor morou em Finca Vigia, e onde criou ‘O Velho e o Mar’, Alfredito se engraçou com uma jovem guia e, orientado por uma funcionária diante do argumento de que o banheiro era longe demais, fez um xixi nos fundos da casa do velho Hemingway. Antes de ir embora, ainda cantou um samba-enredo da Tupi de Brás de Pina como se estivesse ali, no seu reino encantado de Copacabana.

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