João Pimentel: Outras bossas

Pra cantar samba de roda, e não a moda

Por O Dia

Rio - Já fazia um certo tempo que não me despencava para as bandas de Pendotiba para ir ao Candongueiro. Conheci o bar, um templo do samba carioca, quando tinha meus vinte e poucos anos, mais ou menos a metade da minha idade atual. Certamente fui parar lá através do Gallotti, meu parceiro de samba e que na época em que não havia rodas na Zona Sul, menos ainda na Lapa, me dava as dicas dos pagodes suburbanos seja em Marechal Hermes, em Oswaldo Cruz ou mesmo do outro lado da poça.

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A preguiça, a idade, a lei seca e a violência contribuíram para que eu deixasse de ser aquele garoto que passava a semana pensando no próximo pagode. Minha paixão pelo samba me fez conhecer melhor a cidade, me deu, antes mesmo de pensar em ser um jornalista, a possibilidade de ter conhecido artistas como Zé Kéti, Monarco, Nelson Sargento, Walter Alfaiate, Wilson Moreira, Tantinho, Zé Luiz, Claudio Camunguelo, Renatinho Partideiro, e tantos outros. Todos meus amigos pessoais.

E o Candongueiro, nome emprestado de um dos tambores do ancestral jongo, sempre foi a casa do sambista. Foi lá que Aniceto do Império se apresentou pela última vez, ou teria sido o Tio Hélio? Foi lá que a Velha Guarda da Portela encontrou, e ainda encontra, abrigo, antes de ganhar vida nova a partir da gravação do CD ‘Tudo Azul’, por iniciativa da Marisa Monte. Quando a Lapa ainda era um deserto de homens e ideias, antes do produtor Lefê Almeida perceber o potencial daquela região relegada ao passado e ao abandono, o Candongueiro do casal Ilton e Hilda, estava lá como um reduto de resistência. Como um quilombo onde, além de grandes nomes, se reunia os operários do samba, aqueles da linha de frente da produção, da composição. Gênios populares que muitas vezes morrem esquecidos.

Certa vez, conversando com uma jovem cantora da Lapa, esta me confessou que não conhecia nada de Luiz Carlos da Vila. Como assim? Ela sabia tudo de Noel Rosa, de Geraldo Pereira, o repertório do Ciro Monteiro, mas nada de Luiz Carlos, o maior compositor do samba das últimas décadas. Isso me fez refletir que a Lapa havia aberto portas para toda uma geração que admiro, mas que, em um primeiro momento, ficou limitada a reviver clássicos que não encontravam espaço em rádios e na televisão. Legal, mas a coisa não andou muito para frente. A Lapa se transformou para pior. Mais uma vez o sambista foi deixado de lado, em prol de uma juventude melhor diagramada, todos cantando bonitinho, todos limpinhos um repertório tatibitate para turista ver.

É claro que a Lapa, como todo movimento espontâneo, vai deixar sua herança. Tereza Cristina, Alfredo Del Penho, Moyséis Marques, Nilze Carvalho e outros. Cada um com sua trajetória. Mas eu estava sentindo falta de uma roda de samba à vera. O Candongueiro passou por uma invasão de Patrícias e Maurícios por conta da gourmetização do samba pós-Lapa. Por isso, quase ruiu. Por isso, voltar à casa dos meus amigos e reencontrar a minha turma por lá foi mais do que um matar as saudades do bom samba, do Ilton e da Hilda, do Ivan, filho do casal, que conheci menino e hoje é um instrumentista de mão cheia. Voltar ao Candongueiro foi um reencontro pessoal com aquele menino vadio, com menos medos e um fogo imenso de conhecer a vida. Como diz o samba de Tantinho: “Lá se encontram os partideiros/ Pra cantar samba de roda, e não a moda, só no Candongueiro”.

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