João Pimentel: Donga e Geninho

Donga ou Donguinha, apesar do nome de sambista, não pisou devagar

Por O Dia

Rio - Era um domingo de sol, praia lotada, dia propício para uma caminhada pela orla. Na altura da Rua Garcia D’Ávila encontro meu amigo, grande carioca e jornalista Lúcio de Castro. Eu ia em direção ao Leblon, onde ele mora, e resolvemos dividir o calor escaldante, botar o papo em dia. Não andamos nem 200 metros quando, inesperadamente, Lúcio se ajoelha em reverência a um cidadão que caminhava despreocupadamente, sem camisa e sem pressa, no sentido contrário. Não tinha cara de atleta nem de rato de praia, nem de menino do Rio nem de malandro da Lapa. Enfim, um cidadão comum.

“Donga! Donguinha! Meu ídolo!”, exclamou o amigo, chamando a atenção de quem passava por ali. O ídolo do Lúcio, o Donga ou Donguinha, apesar do nome de sambista, não pisou devagar, devagarinho. Ao contrário, acelerou o passo, deu um tchauzinho constrangido e seguiu pela estrada do sol.

Então, Lúcio me explica que Donga era um empresário do mercado financeiro, que teve um problema de saúde, um princípio de infarto ou algo assim, e percebeu que, se continuasse naquela rotina, não iria durar muito. Radicalizou e resolveu que não iria mais trabalhar. Desde então, acorda, dá uma caminhada pela praia, confere o que acontece no pedaço de areia que frequenta e, na volta para casa, compra os jornais, bebe dois, três chopes no Baixo Gávea, almoça e parte para a sesta. À tarde, sol mais ameno, dá outro giro por Ipanema e desaparece até o dia seguinte. Leva uma vida modesta, ninguém sabe muito dele além desta rotina. “Um homem por trás dos óculos”, como diria Drummond. Do voraz homem de mercado, restou apenas o cálculo para que o dinheiro que quase o matou dure para o restante da vida que escolheu.

Na contabilidade de Donga, dos seus colegas das finanças, uns engordaram, outros enfartaram e raros têm visto um pôr do sol, reparado na mudança das marés, na beleza da moça que passa. “Enquanto isso, o Donguinha tá aqui”, costuma repetir nosso personagem.

Tenho outro grande amigo, Geninho, que aproveitou uma oportunidade e mudou-se para a Praia da Pipa, um paraíso no Rio Grande do Norte. Formado em Educação Física e meu vizinho dos tempos de Jardim Botânico, recebeu um convite para trabalhar com turismo ecológico. Craque das peladas e bom de conversa, fez novos amigos, criou sua própria história, casou, teve filhos e tudo o mais. Há uns dois anos, de passagem por aqui, foi recebido pelos velhos amigos com churrasco, samba e pelada. Em algum momento, comentei que ele estava bem e perguntei se estava trabalhando muito.

“Pô, você está me estranhando? Você sabe que trabalhar nunca foi meu forte”, disse, às gargalhadas.

Em tempos de desemprego, de tantos amigos geniais e talentosos sem saber que rumo tomar, fico pensando com meus botões se Geninho e Donga, dentro de suas próprias lógicas, não fizeram a opção correta.

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