Luis Pimentel: o Rio de A a Z - 17

Zé Kéti guardava no peito o sentimento do homem das ruas, dos bares e morros

Por O Dia

Rio - Prosseguindo com a série de verbetes afetivos sobre o Rio de Janeiro, hoje com as letras X, Y e Z:

X do problema — Noel Rosa cantou a pedra, em samba memorável: “Ser artista é bem fácil/Sair do Estácio é que é o X do problema”... Se bem que, para o verdadeiro carioca, não há problema sem uma solução.

Yamandu Costa — Ele é gaúcho (de Passo Fundo, tchê!), daqueles de levar erva mate e chimarrão até para a igreja, mas de tal maneira integrado no espírito carioca, nas rodas de samba ou de choro, no Carnaval ou nos bares mais bacanas da cidade, que já se tornou figurinha colecionável e admirável pelos curtidores da boa música no Rio. Considerado um dos maiores violonistas do Brasil, um dos mais respeitados no mundo inteiro, Yamandu conquistou de vez o público carioca quando gravou CD antológico ao lado de outro forasteiro que o Rio amava, o superclarinetista Paulo Moura (paulista de São José do Rio Preto). Pode­se dizer que o grande mago do violão é mesmo um cariúcho.

Zé da Zilda e Zilda do Zé — Um não vivia sem a outra; outra não compunha sem o um. O Zé (José Gonçalves, 1908­1954) fez um caminhão de sambas lindos. O meu preferido diz assim: “Falam de mim, mas eu não ligo, falam de mim, que sempre fui amigo / Um rapaz como eu, não merece essa ingratidão, falam de mim, mas quem fala não tem razão...” Zilda Gonçalves (1919­2002) fez muitos sambas com o Zé. O mais bonito teria feito depois que ele morreu (há controvérsias) e diz assim: “Vai, vai, amor, vai que depois eu vou / Sei que vais pra longe, não poderei te esquecer...”

Zé Kéti — “Eu sou o samba, sou natural daqui do Rio de Janeiro”. Carioca da Pavuna a Copacabana, o grande compositor e sambista José Flores de Jesus, o Zé Kéti (1921­1999), foi um dos cariocas mais simpáticos que rodas de samba como as do Opinião ou do Bip Bip, bem como amantes da MPB ou do cinema, já aplaudiram. Zé foi o mais popular dos compositores da Música Popular Brasileira. Guardava no peito, como mote e fonte de inspiração, o sentimento do homem das ruas, dos bares e dos morros da cidade, onde viveu a sua vida inteira e onde morreu. Nos últimos anos, flertou muito com São Paulo, ali chegou a ter casa montada. Mas era no Rio, na Pavuna, na companhia dos amigos portelenses, que repousava o seu coração. Conviveu com períodos de muito sucesso e de absoluto ostracismo em sua carreira. Paulinho da Viola diz que Zé Keti era o maior compositor vivo do Brasil. Zé Renato, que fez um belo disco cantando toda a obra dele, acha a mesma coisa. Outras autoridades no assunto também acham. Mesmo assim, o artista morreu pobre, como morreram Nelson Cavaquinho, Wilson Batista, Geraldo Pereira, Cartola, Padeirinho e outros tantos camisas 10 da MPB.

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