Por karilayn.areias

Rio - Antes que corrijam o título acima, já que a opção correta é ‘haja vista’, expressão verbal equivalente a ‘veja’, esta coluna não trata de nenhum melindre linguístico, apenas o curioso périplo vivido pelo colunista em busca do seu primeiro visto americano. Sim, aos 45, espero que do primeiro tempo, resolvi ceder à tentação de conhecer Nova York. Minha primeira questão, é claro, era o porquê da necessidade de um visto americano para visitar uma cidade que todo mundo diz que tem de tudo, menos americanos.

Sempre tive muita preguiça, já disse antes, de entrar em filas de qualquer espécie. Mas, por outro lado, sempre tive uma imensa curiosidade de conhecer a capital cultural do planeta, de correr no Central Park, de ir aos musicais, entrar nos clubes de jazz e bater perna como se fosse um figurante de algum clássico do cinema.

Mas e a fila? E a possibilidade de pagar as taxas, preencher toda a papelada e na hora agá alguém no guichê, por detrás do vidro, dizer: “Sinto muito, sua solicitação foi negada.” Decidi tentar a sorte. Segui a indicação de uma amiga e marquei com uma profissional de uma especialidade que desconheço. Algo assim como alguém que recolhe os documentos, te ajuda a preencher as fichas, a marcar o dia da foto e da entrevista, te indica a fila correta, te pega no colo, te deita no solo e te faz mulher.

No dia marcado, lá estava eu, de barba feita, roupa impecável, cara de sério, como se procurasse emprego. Na hora marcada para a minha entrevista, 10h30m, lá estava eu. Quando cheguei e vi aquela fila enorme, minha primeira reação foi correr, o que só não aconteceu porque minha acompanhante, vamos chamá-la assim, me acalmou.

“Ainda está no lote das 10h. Sua fila é aquela ali”. E realmente havia uma organização. Mas ainda estávamos em solo brasileiro, tinha que ao menos parecer uma balbúrdia.

Finda a primeira fila, já dentro do consulado, pisei em solo americano pela primeira vez, mesmo estando ali, na Rua México. Me senti estranho. Na primeira triagem, recolheram meu passaporte. Olhei em volta e todos estavam com os seus na mão. A moça do balcão me disse que teria que fazer uma correção. Um carinha ao meu lado, com ares de Renato Russo, debochou: “Deve ser o seu passado terrorista.” Pouco tempo depois, me devolveram o documento. “Vou ser rejeitado”, pensei. Passada esta etapa, fui chamado ao guichê onde uma moça inquisidora me aguardava.

“Qual o seu roteiro? Por quais países vocês viajou nos últimos cinco anos? Qual sua profissão? Por qual time torce? Por que você piscou? Quer namorar comigo?”

“Não sei! França, Espanha, Argentina, Cuba! Cuba pode? Jornalista, flamenguista, tenho tique nervoso. Não, não quero namorar você.”

Antes de ir embora, notei que meu passaporte tinha ficado com a inquisidora. Perguntei a uma jovem que estava ali, parada, se o tinha sido devolvido.

“Sim, devolveram. Quer dizer, meu visto foi negado porque sou jovem, solteira e não moro com meus pais”, lamentou.

Pronto, descobri uma vantagem da velhice.

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