Por karilayn.areias

Rio - A crônica de hoje é para ser lida e ouvida, porque vou falar de música. É que escutei recentemente dois discos deliciosos — um cantado e outro tocado — e, sem querer entrar na seara do mestre Mauro Ferreira, comento e divido a boa impressão com os amigos.

O primeiro disco é o mais recente da cantora Rosa Passos, intérprete que tem uma das vozes mais delicadas da MPB, reapresentando canções de três craques do verso e da melodia. Rosa canta como se estivesse falando umas bobagens bonitas no ouvido da gente. Como tudo o que seleciona e apresenta é bonito, pois escolher repertório é uma de suas grandes qualidades de intérprete, e bobagem em baianês quer dizer coisa boa e não coisa boba, ela está sempre nos emocionando, a cada novo disco.
Este que acaba de sair chama-se ‘Rosa Passos Canta Ary, Tom e Caymmi’ (Biscoito Fino). Com certeza não precisa, mas vamos lembrar que Ary é o Barroso, Tom é Jobim e Caymmi é ele mesmo, Dorival. Pedras preciosas do precioso repertório dos três foram escolhidas por Rosa. São elas: ‘O Samba da Minha Terra’, ‘Um Vestido de Bolero’, ‘Marina’, ‘Só Louco’ e ‘Vatapá’, de Caymmi; ‘Inútil Paisagem’, ‘Garota de Ipanema’, ‘Vivo Sonhando’ e ‘Samba de Uma Nota Só’, de Tom (parcerias com Aloysio de Oliveira, Vinicius de Moraes e Newton Mendonça); e ‘Morena Boca de Ouro’, ‘Pra Machucar Meu Coração’, ‘Camisa Amarela’ e ‘Isso Aqui o Que É?’, de Ary.

Essa baiana porreta há muito conquistou um lugar de destaque na música brasileira. Reconhecida como uma das cantoras mais afinadas que temos, coleciona elogios de críticos, compositores e conhecedores do assunto. Neste disco, reúne canções espalhadas por três álbuns anteriores, sempre dedicados aos mestres da composição, entre eles o premiado ‘É Luxo Só’, de 2011. Bom registrar aqui que nas gravações, Rosa está acompanhada de grandes músicos da MPB, como Jorge Helder, Erivelton Silva e Marco Brito, além da dupla de craques Lula Galvão e João Donato, responsáveis também pelos delicados arranjos.

O segundo disco que elogio aqui é instrumental ‘Velhas Ideias Novas — o Sax da Gafieira ao Sambajazz’, do instrumentista Leo Gandelman. Pelos estatutos da gafieira, o ambiente está sempre exigindo respeito. No sax do espetacular Leo, da gafieira ao samba ou ao jazz, passando e bailando por todos os gêneros dançáveis, respeito à boa música é o que não falta. Com direção musical, produção e arranjos do próprio, esse CD (SaxSamba / Maximus) é uma aula de dança e de bom gosto. No repertório, a senhora seleta do que há de melhor, com canções de Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, Lupicínio Rodrigues, Moacyr Santos... um cardápio e tanto. Segundo Henrique Cazes, autoridade no assunto, “o tratamento musical utilizado foi a recriação livre, mantendo as características que marcaram a transição da gafieira ao sambajazz: balanço e muito improviso, sobre temas clássicos do samba, com um resultado dançante.” E está dito.

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