Mauro Ferreira: Retrato musical de Dorival Caymmi ganha outros tons

Batizado com samba inédito do baiano, 'Don Don' aborda cancioneiro do compositor com levadas contemporâneas

Por O Dia

Rio - Samba que jazia no baú de músicas inéditas de Dorival Caymmi (1914 - 2008), ‘Don don’ — parceria rara do compositor baiano com o empresário do ramo da comunicação Assis Chateaubriand (1892 - 1968) — ganha seu primeiro registro em disco. ‘Don Don’ dá nome ao álbum gravado por Danilo Caymmi com produção do baixista Bruno Di Lullo e do baterista Domenico Lancelotti, músicos da cena contemporânea carioca.

‘Don Don’ apresenta o cancioneiro de Caymmi em tom mais atual, mas preservando a arquitetura perfeita da obra do ourives. Os toques de músicos como Moreno Veloso e Pedro Sá — presentes no disco — dão frescor a 12 músicas lançadas entre as décadas de 1930 e de 1960. São sambas e sambas-canção, em maioria.

Dorival Caymmi tem seu cancioneiro recriado com leveza por seu filho caçula%2C Danilo Caymmi%2C em ‘Don don’%2C disco produzido por Bruno Di Lullo e Domenico LancelottiAutorretrato de Dorival Caymmi/1974

A neta Alice dá voz à 'Noiva'

Neta de Dorival, a cantora Alice Caymmi dá sua encorpada voz grave à ‘Canção da noiva’ (1957), no único instante denso de disco que prima pela leveza. Na primeira faixa do disco (já disponível nas plataformas digitais), o samba ‘Lá vem a baiana’ (1947), já fica claro que Danilo, Di Lullo e Domenico caem num suingue diferente. Em fina sintonia com o tom de ‘Don Don’, Danilo adota estilo de canto mais suave, às vezes até íntimo, como ouvido em ‘Dora’ (1945), samba-canção aclimatado na cidade do frevo. À beira dos três minutos, a levada da faixa é alterada. Mas ‘Dora’ é respeitada.

Valsa com toque de samba, ‘Das rosas’ (1964) põe o canto de Danilo em segundo plano para realçar o lirismo desse elogio à beleza. A voz do cantor é ouvida somente a partir do meio da faixa. Já o samba ‘A vizinha do lado’ (1946), composto por Caymmi à moda carioca, é ambientado em clima de gafieira. Por sua vez, o buliçoso samba ‘Requebre que eu dou um doce’ (1941) fica cheio de quebras no ritmo.


Samba-canção sem drama


Gravado no primeiro semestre de 2014, a tempo de festejar o centenário de nascimento de Dorival, ‘Don Don’ chega ao mercado com atraso pelo selo carioca Maravilha 8. De todo modo, o disco merece audição atenta pela habilidade dos produtores de renovar o cancioneiro de Caymmi sem mexer na estrutura básica de sambas e sambas-canção como ‘Só louco (1955), ouvido em atmosfera clássica, desconstruída ao fim da faixa. Tal ambiência clássica também envolve ‘Nem eu’ (1952), samba-canção cantado por Danilo com delicadeza, pois Dorival nunca fez drama em suas incursões pelo gênero.

Ainda dentro da seara dos sambas-canção, ‘Nunca mais’ (1949) traz o canto esmecido de Ana Cláudia Lomelino, vocalista do grupo carioca Tono. ‘Don Don’ dá outros tons ao retrato musical de Caymmi.

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