Mostra fotográfica inédita revela como eram as favelas desde 1965

Exposição 'O Rio Que se Queira Negar' está no Museu da República a partir de hoje

Por O Dia

Rio - Se o antropólogo Anthony Leeds (1925- 1989) ouvia Zé Keti, não se sabe. Também não se sabe se ele era o samba, como diz a música. Mas que foi a voz do morro, isso ele foi mesmo, sim senhor. Durante quase três décadas, Leeds se dedicou a compreender as comunidades cariocas e registrou o cotidiano de várias delas, como Tuiuti e Jacarezinho, onde morou. Hoje, pela primeira vez, uma série de fotos que produziu ao longo de sua pesquisa vem a público com a mostra ‘O Rio Que se Queira Negar’, no Museu da República.

Igreja construída em madeira%2C na Favela do Tuiuti%2C próxima à casa onde Anthony Leeds morou%2C em 1965Divulgação

Em uma sequência fotográfica, que vai de 1965 até o fim dos anos 80, nota-se o nascimento, a morte e o renascimento de várias favelas da cidade. Pois se atualmente é inconcebível imaginar o Rio sem elas, antigamente a política era de remoção. Ou de deslocamento, já que centenas de famílias foram convidadas a se retirar de uma comunidade para serem realocadas em outros pontos, que deram origem a novas favelas.

“Se pararmos para avaliar a história, isso só aconteceu com as favelas que ficavam na Zona Sul, e em áreas de expansão urbana e imobiliária”, destaca Ana Luce Girão, pesquisadora da Fiocruz (instituição para onde o acervo foi doado). “A remoção não foi feita a partir de um estudo sobre o bem-estar das pessoas. Elas foram levadas para lugares distantes de onde viviam e que também acabaram favelizados”, critica ela.

Foi o caso da Macedo Sobrinho, da Catacumba e outras comunidades em torno da Lagoa Rodrigo de Freitas, desfeitas entre a década de 60 e 70. Suas casas foram abaixo, mas elas não foram extintas. Apenas mudaram para endereços bem distantes dos olhos das classes mais abastadas da cidade.

“O Anthony registrou o cotidiano dessas antigas comunidades, as remoções e o surgimento de novas favelas a partir daí”, pontua Ana Luce, que esteve envolvida com o processo da exposição desde a doação do acervo (cerca de 770 fotos) pela viúva do antropólogo americano, Elizabeth Leeds. “Pelas fotografias, vemos a antiga Parque Proletário da Gávea, que acabou migrando para a Cidade de Deus (aproximadamente 23,5 km de distância)”, cita ela, ressaltando que a prática não é algo que se restringe apenas ao passado.

Registro do Parque Proletário da Gávea feito por A. Leeds%2C em 1968Divulgação

Mesmo com a criação de políticas públicas de urbanização para as favelas cariocas, fantasmas históricos ainda assombram quem vive nelas. Além da violência e da falta de assistência básica, ninguém está a salvo do convite a se retirar da própria casa. “Lembra o que aconteceu com a construção da Cidade Olímpica?”, questiona a pesquisadora, referindo-se à remoção da Vila Autódromo, em Jacarepaguá, em 2014. “Os moradores foram retirados de maneira compulsória. Eles já residiam há anos lá”, completa.

Mas e se, ao invés de receberem o tal ‘convite irrecusável’, os moradores tivessem a oportunidade de chegar a um acordo do que é melhor para eles e para o Rio? É essa a pergunta que Ana Luce se faz várias vezes durante a entrevista e que fará durante o seminário marcado para acontecer hoje e amanhã, no Museu da República.

Ana Luce explica que, no início, o problema das primeiras favelas era social, e a partir da década de 60 se tornou social-urbanístico. Nos anos 70, o tráfico entra na jogada, e o problema vira social-urbanístico-criminal. A bola de neve segue aumentando desde então. “Os anseios e reivindicações dessas pessoas não são levados em conta. Será que um dia vão ser? A exposição está aí para refletirmos sobre isso”.


ONDE E QUANDO

RIO QUE SE QUEIRA NEGAR.Museu da República. Rua do Catete 153, Catete (2127-0324). Grátis. Hoje, abertura às 19h. A partir de amanhã: de ter a sex, das 10h às 17h. Sáb, dom e fer, das 11h às 18h. R$ 6. Grátis às quartas e domingos. Até 17 de janeiro de 2016.

Últimas de Diversão