Ricardo Cota: Nise da Silveira conquista o público

'Tá filmando o quê, seu maluco?' Que a loucura persista

Por O Dia

Nise da Silveira conquista o públicoReprodução

Rio - O Festival do Rio terminou reconhecendo a força do cinema brasileiro, sobretudo o cinema de jovens autores e atores. Os prêmios principais confirmaram isso. ‘Boi Neon’, segundo longa de ficção do pernambucano Gabriel Mascaro, venceu a categoria Melhor Filme. ‘Mate-me Por Favor’, filme de estreia de Anita Rocha da Silveira ficou com o Redentor de Melhor Direção e Valentina Herszage, ganhou Melhor Atriz, batendo nada menos que as experientes Glória Pires e Carla Ribas.

O júri popular consagrou, nas categorias Documentário e Ficção, dois personagens de grande valor simbólico na cultura brasileira. ‘Betinho — A Esperança Equilibrista’, de Victor Lopes, emocionou ao relembrar a história do sociólogo que encarnou a luta contra a ditadura e foi um dos pioneiros na conscientização do combate à AIDS.

‘Nise — O Coração da Loucura’, de Roberto Berliner, por sua vez, arrebatou plateias ao trazer para as telas a luta da alagoana Nise da Silveira para humanizar o tratamento psiquiátrico a partir de suas experiências numa colônia do Engenho de Dentro, após ser presa e acusada de comunismo no governo Vargas.

Inspirado na biografia de Bernardo Horta, ‘Nise: Arqueóloga dos Mares’, o filme remete a pelo menos dois clássicos do cinema brasileiro: ‘Memórias do Cárcere’, de Nelson Pereira dos Santos, e ‘Memórias do Inconsciente’, de Leon Hirszman. Do filme de Nelson, ‘Nise’, quiçá inconscientemente, estabelece um paralelo entre a fúria libertária de Graciliano Ramos e a da própria Nise em ambientes completamente adversos, respectivamente uma colônia penal e outra manicomial.

Já ao monumental documentário-sensorial ‘Memórias do Inconsciente’, ‘Nise’ deve a essência da compreensão da arte para além da própria tese da terapia ocupacional. A arte como instrumento libertário da psique para a construção de uma estética autoral, como bem observa o crítico Mário Pedrosa, citado no filme de Roberto Berliner. E o brinde é a imagem documental da própria Nise, em momento de descontração, fazendo a pergunta que caberia a todos os participantes do Festival do Rio: “Tá filmando o quê, seu maluco?” Que a loucura persista.

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