João Pimentel: A maior distância entre dois pontos

Hoje sabemos que as coisas já se encaminhavam para o Carnaval atual

Por O Dia

Rio - Não lembro ao certo a companhia aérea que tinha o slogan “a menor distância entre dois pontos”. Além da distância a ser percorrida, é evidente que tal empresa vendia seus ótimos profissionais, seu assentos confortáveis, o espaço interno generoso, o café da manhã, as refeições servidas na aeronave e outros atrativos mais.

A transformação da aviação civil em um desastre completo faz parte do imenso painel de mumunhas de políticos e empresários que leva o país trilhar este triste caminho de incertezas. A sensação que se tem é a de que o navio está afundando — ou o avião caindo — e ninguém está preocupado em salvar o maior número de pessoas possível, mas sim livrar a própria cara, garantir os últimos milhõezinhos às custas de vidas alheias. Como diz um velho partido alto, vou garantir o meu porque “em festa de rato não sobra queijo”.

A maior distância entre dois pontosAgência O Dia

Lá pelo início dos anos 80, muitas pessoas reclamavam dos desfiles das escolas de samba, do gigantismo, da deturpação dos valores das agremiações, da qualidade das músicas, dos enredos, enfim, da trajetória essencialmente comercial em detrimento do lado lúdico da festa. Candeia e outros, ainda nos 70, criaram o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo e enfrentaram um sistema de coisas que se mostrou avassalador, com a força da grana que ergue e destrói coisas belas.

Se olharmos hoje os desfiles da virada destas décadas eram pueris, de uma beleza calcada na simplicidade. Os sambistas faziam sambas, os passistas diziam no pé, as baianas esbanjavam beleza, as baterias mantinham suas características. Por que reclamavam, então? Tudo estava em seu lugar. Mas hoje sabemos que as coisas já se encaminhavam para o Carnaval atual. Virou Hollywood isso aqui.

Mas vamos ao voo. Sempre tive medo de avião. Não dormia, pegava na mão da minha mãe, de Deus ou de quem estivesse ao meu lado e fechava os olhos. Com o tempo, o medo foi passando e dando lugar a um sentimento pior, ao de um desconforto em todos os sentidos. A coluna, o pescoço, o estômago, a insônia, o serviço, tudo isso que fazem com meus órgãos, com os meus sentidos antecipam o sofrimento de voar.

O voo da ida para uma viagem de dez horas para Nova York foi de doer. Justificou as expectativas, mas o de volta, um tal JJ 8079 da TAM foi além. A ponto de as aeromoças brasileiras, as mais simpáticas do mundo, fecharem a cara de vergonha pela total incapacidade de prestarem um serviço digno. As luzes de leitura estavam apagadas, segundo informações em solo, porque a aeronave “já deveria ter ido para a manutenção”. Como assim? Pensei no estado das turbinas, sei lá. A massa era um macarrão semipronto vagabundo, sem molho, sem gosto. O café, claro, estava frio.

Diante disso, a turbulência, o ronco do passageiro ao lado, os gritos finos de um troglodita que sonhava sabe-se lá com que não incomodavam tanto. Ao tentar um copo d’água para matar a sede na madrugada, a resposta foi enfática: “Acabou”. Quando o martírio parecia terminado, aguardando apenas o procedimento de descida, TUM, TUM, TUM, o avião pousou sem aviso prévio, sem o apertar de cintos, sem o reclinar das poltronas e sem o incauto que estava no banheiro ter tempo sequer de se aprumar. Saiu com uma cara de “o que é que aconteceu?”.

Após o pouso, ainda teve tempo de ouvir: “Agradecemos a preferência. Esse é o jeito TAM de voar.”

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