Filme revela correspondência de Drummond com leitora por 24 anos

‘O Último Poema’ estreia neste sábado no Cine Joia

Por O Dia

Rio - Por 24 anos, Carlos Drummond de Andrade acompanhou a vida da professora primária Helena Maria Balbinot, hoje com 75 anos. Ele deu conselhos, a incentivou a escrever, trocou poesias e histórias sobre o dia a dia. Mesmo sem nunca ter encontrado com a amiga pessoalmente. O mais próximo que Helena chegou do poeta foi ao lado de sua estátua, em Copacabana, durante as filmagens de ‘O Último Poema’, que estreia hoje, no Cine Joia — na mesma data em que o autor, morto em 1987, completaria 113 anos.

Nesta foto%2C Helena Maria BalbinotEduardo Rosa

“Essa relação nunca se concretizou no físico. Mas no espiritual, foi muito querida”, define a diretora do documentário, Mirela Kruel. Apaixonada por poesia, ela se sensibilizou tanto com a história da professora, que a convenceu a superar a timidez na frente das câmeras. “Estava tão animada, que consegui contaminá-la. Na nossa primeira conversa, já saí da casa dela com uma autorização de imagem”, lembra-se.

No baú de Helena estava guardado o seu tesouro: envelopes e cartas acumuladas por quase duas décadas e meia. No início da década de 60, quando começou a estudar para o magistério, se indignou quando sua professora desdenhou da escrita de Drummond.

A então estudante do interior do Rio Grande do Sul se atreveu a contar o ocorrido para seu poeta preferido e enviou uma carta à casa dele, no Rio. Ela nem acreditou quando recebeu a resposta. Mas a troca de cartas resistiu até os últimos dias de Drummond. “Penso que essas correspondências foram uma janela para arejar aquela rotina do interior, de uma jovem vinda de uma família conservadora”, arrisca Mirela, ressaltando o quanto os incentivos do escritor iam de encontro com os padrões femininos da época.

Não que ele fosse um transgressor social ao dizer que ela deveria escrever e estudar. Mas para Helena seguir carreira como poetisa precisaria priorizá-la, em detrimento de seu casamento. “Na geração da Helena, muitas mulheres deixaram seus sonhos para construir o núcleo familiar”, diz a diretora. No filme, a professora primária desabafa que se sentiu dividida, mas que precisava construir uma família. Então, a caneta e o papel acabaram de lado — ou quase.

“Ela continua escrevendo. Esta semana, me contou que mandou seus poemas para uma amiga de São Paulo, para tentar uma publicação. E eu fiquei muito feliz. Talvez o filme tenha ajudado a abrir esse recanto poético dela”, comemora a cineasta. “Espero que o documentário resgate isso nela. Afinal, ainda termos tempo, né”, torce Mirela.

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