João Pimentel: Meu primeiro assédio

Quantos assédios de diferentes níveis o ser humano é capaz de impingir ao outro

Por tabata.uchoa

Quantos assédios de diferentes níveis o ser humano é capaz de impingir ao outroAgência O Dia

Rio - Tenho dois sonhos recorrentes. O primeiro é de determinada situação em que eu preciso me defender, dar um soco em alguém, e a minha mão, o meu corpo, não têm força para completar a ação. Alguma fraqueza faz com que a minha mão não toque o rosto do opressor. No segundo, eu me encontro em algum ambiente, em uma redação, ou dentro de um elevador, talvez na rua, de cuecas. Acho que nunca totalmente nu. Mas de cuecas tentando encontrar um abrigo, achar uma bermuda ou uma calça, esconder a minha seminudez.

Eu tinha, sei lá, meus 8, 9 anos, quando um dia, ao descer a escada do prédio onde morava na Rua José Roberto Macedo Soares, atrás do Baixo Gávea, quando um velho, um vigia do prédio, puxa uma conversa qualquer comigo e tenta passar a mão no meu, desculpe a expressão, pau. Eu corro de volta pra casa, ou teria sido para a rua?, sem saber o que fazer. Minha lembrança termina aí. Será que eu estava de cuecas? Não lembro se algum dia, ou mesmo na época, comentei isso com a minha mãe, já então separada do meu pai. Mas passei o resto do tempo em que vivi ali, indo para a escola ou para brincar na rua, assustado com o fantasma daquele velho, daquele monstro.

Quantas crianças mais ele assediou? Será que foi além? Então me deparo com amigas, amigas das amigas, conhecidas, jovens e senhoras postando corajosamente suas histórias na internet. E me vi ali, diante daquele espectro, tentando me desvencilhar, tentando alcançar um soco inalcançável para uma criança, de cuecas em meio a uma multidão de fantasmas. E percebo hoje o quanto aquela fração de segundos, aquela tentativa nojenta, ainda invade meus sonhos, estupra minhas memórias.

E quantas outras tentativas de estupro fui sofrendo por aí. Quantos assédios de diferentes níveis o ser humano é capaz de impingir ao outro... O apelido desagradável, que eu tive e botei nos outros, confesso. O chegar em um novo colégio, e foram muitos, e ser o estranho, o excluído, o que chegou depois. Mas até aí pode-se alegar a meninice, a incapacidade de se perceber o tamanho da maldade que estamos fazendo ou sofrendo.

Aí vem o trabalho, o assédio moral, a intimidação inescrupulosa de um chefe qualquer, a tortura mental em forma de desprezo pelo seu trabalho, pelas suas ideias. E nesse caminho perverso, nessa lógica de estimular o outro a passar por cima da ética, do respeito ao próximo, você descobre que assim caminha a humanidade, “com passos de formiga e sem vontade”.

Mas não, tem gente boa por aí sim, brigando contra o estupro maior desse país que são os velhos políticos machistas, covardes, desumanos, caretas, reacionários. Só essa gente, através das mídias sociais em contraponto aos grandes veículos de comunicação (?), quase todos fechados desde sempre com interesses escusos, com o atraso, com as enormes desigualdades desse país, pode virar o jogo.

A virada está nas mãos de todos nós, homens, mulheres, gays, brancos, pretos, rosas, outubros, novembros e dezembros. A luta da humanidade sempre foi contra a injustiça, o preconceito, a covardia, contra o opressor, seja lá quem for. Continuemos, pois, nessa batalha.

Uma assinatura que vale muito

Contribua para mantermos um jornalismo profissional, combatendo às fake news e trazendo informações importantes para você formar a sua opinião. Somente com a sua ajuda poderemos continuar produzindo a maior e melhor cobertura sobre tudo o que acontece no nosso Rio de Janeiro.

Assine O Dia