Ricardo Cota: Maturidade de Dira Paes em 'Órfãos do Eldorado'

Coelho percebeu essa Manaus com um olhar melancólico

Por O Dia

Dira Paes e Daniel de Oliveira em ‘Órfãos do Eldorado’Reprodução

Rio - Dira Paes é antes de tudo uma atriz de cinema. Sua raiz está fortemente ligada ao veículo e remete aos dois primeiros filmes, assinados por diretores cuja excelência não poderia ter dado melhor norte à sua carreira. Dira entrou pela porta da frente do cinema com John Boorman, em ‘A Floresta das Esmeraldas’, em 1986. A estreia cativou o olhar de Walter Lima Jr., que um ano depois a levaria para estrelar ‘Ele, o Boto’. Daí em diante são pelo menos 30 filmes no currículo. Por enquanto.

'Órfãos do Eldorado’, de Guilherme Coelho, estreia de hoje no cinema, espelha justamente a maturidade da atriz, com a interpretação elaborada de um personagem feito de carne e mito. Dira encarna Florita, par encantado de um atormentado Arminto, interpretado por Daniel Oliveira. Os papéis, no entanto, agora se invertem. É Dira que abre as portas para o cineasta Guilherme Coelho fazer sua ousada entrada no cinema de ficção.

Conhecido por seus documentários (‘Fala Tu’, ‘PQD’), Coelho optou por um caminho audacioso. A obra do escritor amazonense Milton Hatoum não oferece trilha fácil para as adaptações cinematográficas. Sobretudo ‘Órfãos do Eldorado’, narrativa em que o mítico e o real se entrelaçam construindo um universo que se torna palpável apenas na mente confusa e atribulada do personagem-narrador.

A chave usada pelo diretor, também roteirista, foi trabalhar a percepção do tempo, da ambiência e da intervenção lendária na obra de Hatoum. O filme não se sustenta apenas no livro, mas recria o território do escritor presente em outras obras. Ecoam na relação entre Arminto e o pai os dramas familiares de ‘Cinzas do Norte’ e ‘Dois Irmãos’, em que as condições econômica, geográfica e temporal paralelamente determinam e aprisionam o destino dos personagens.

Coelho percebeu essa Manaus com um olhar melancólico, sublinhado por sua experiência documental, reproduzindo o tempo e o espaço de forma contemplativa, nitidamente em contraste com a energia dos personagens, principalmente do inquieto Arminto. Assim é possível sentir o vento quente que parece aumentar a exasperação dos personagens, aprisionados numa solidão sem esperança. O traslado da página ao filme respeita Hatoum e engrandece a filmografia de Coelho.

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