Daniel de Oliveira vai de carro até o Pará para sentir a energia da Amazônia

Após as gravações do filme ‘Órfãos do Eldorado’, ator quis voltar para participar junto com os romeiros do Círio de Nazaré

Por O Dia

Rio - ‘Quanto tempo tenho para chegar em Belém?”, perguntou Daniel de Oliveira à produção de ‘Órfãos do Eldorado’, que o aguardava para as filmagens. Seis dias. O ator não pensou duas vezes: trocou a passagem de avião pelo dinheiro do bilhete, encheu o tanque do carro e caiu na estrada, do Rio até a Amazônia, onde entrou de vez na pele do protagonista Arminto Cordovil, em cartaz nos cinemas. 

“A equipe do filme quase pirou. Mas isso já fazia parte da minha preparação”, justifica Daniel. Pois não bastava ter lido o roteiro, tinha que preparar o terreno, no caso ele mesmo, para a chegada do novo personagem. “Eu já estava cabeludo pois começaríamos a filmar pelo final da história — o que já ajudava. Mas passar por todas aquelas paisagens e conversar com todas aquelas pessoas no caminho me enriqueceu como ator e como pessoa também”, garante.

Experiência espiritual: Daniel de Oliveira na pele do protagonista Arminto CordovilOctavio Cardoso/Divulgação

O método funcionou, já que a primeira cena mostra o retorno de Arminto a Belém. Após anos afastado da cidade, ele retorna à casa da família e se depara justamente com a amante (Dira Paes) que compartilhava com o próprio pai — motivo de sua partida. “Toda aquela natureza ia me ajudando muito a entrar no personagem”, conta o ator, que diz ter presenciado queimadas em terrenos enormes no Pará, ao lado dos amigos Roger Gobeth e Daniel Chiacos, ambos fotógrafos que fizeram companhia e registraram a aventura.

“A paisagem é algo muito importante no filme. Pois preferimos mostrar a transformação social que a Amazônia vem sofrendo”, acrescenta o diretor, Guilherme Coelho, que também inseriu diversas lendas indígenas à trama de amor proibido de Arminto, adaptada da obra homônima de Milton Hatoum. “As lendas indígenas são para falar da relação do homem com ele mesmo e com a natureza”, explica o cineasta.

Aliás, é através dessas lendas que um assunto considerado tabu é abordado no longa: o incesto. “Isso é uma loucura, mas existe em qualquer país — avançado ou de terceiro mundo”, lamenta Daniel. Mas o assunto é recorrente na carreira do ator, que encarnou personagens incestuosos em ‘Sangue Azul’ e em ‘A Festa da Menina Morta’. “Gera polêmica. No caso de ‘Órfãos..’, você não sabe se é imaginação ou não. É quase um devaneio. Gosto desse tipo de filme, fica mais rico para o ator”, reconhece ele, que completa: “Não posso criticar o personagem, preciso entrar na viagem dele. Por isso, acho que ser ator é fascinante”.

Se as questões humanas são as que mais atraem Daniel, sua estadia na Amazônia ampliou seus horizontes além da geografia. “O mundo está tão intolerante e cruel porque não compreendemos as diferenças. Eu cruzei esse Brasil e conversei com tantas pessoas. E cada uma delas me modificou”, pondera o mineiro, que, depois das filmagens, fez questão de voltar ao estado para presenciar a celebração do Círio de Nazaré (uma das maiores manifestações religiosas católicas do Brasil e do mundo).

“Fiz o filme duas semanas antes do Círio e quis muito participar. Foi maravilhoso. Peguei um pedaço da corda (espécie de espaço de pagamento de promessas dos romeiros). Foi bom ver tantos objetivos diferentes permeados pela fé de quem estava ali”, lembra-se ele, que conclui: “Tudo isso vai ajudando a me tornar uma pessoa melhor”.

Os atores Daniel de Oliveira e Dira Paes%2C em cena de ‘Órfãos do Eldorado’%2C em que vivem uma paixão proibidaOctavio Cardoso/Divulgação


FILME À VISTA, PÉ NA ESTRADA

'Órfãos do Eldorado’não é o primeiro filme que faz Daniel de Oliveira encarar uma aventura. Durante as filmagens de ‘Sangue Azul’ (2012), ele cismou que tinha que ir de barco até o set, em Fernando de Noronha. “Tentei até embarcar no barco que levava o lixo de lá, mas não consegui”, diverte-se ele ao lembrar da história. “Nessa saga, acabei fazendo amizade com o cara que ficou me ajudando a conseguir um barco em Recife. Até hoje, quando ele vem ao Rio, me liga e tomamos uma cerveja”, diz o ator, que no fim das contas, precisou se render e ir para o arquipélago de avião.

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