Luis Pimentel: Vejam o que eu vejo

Vejo pela janela do sonho um menino, ainda cheio de sono

Por O Dia

Rio - Hoje é dia do meu aniversário e por este motivo resolvi me dar de presente uma crônica. Ela é feita de cenas que vejo quando olho para trás, nessa estrada já bem comprida, embora espere haver ainda muita estrada pela frente. Por serem imagens tão caras, divido com os amigos que me acompanham semanalmente neste espaço. Vejam o que eu vejo:

1. Vejo pela janela do sonho um menino, ainda cheio de sono, caminhando até o banheiro onde molha os cabelos de cachos bem pretos na pia da manhã ainda cinza. Depois, segue para a mesa do café ainda quente, exalando dele e do café o perfume que vaza pela janela da cozinha.

O menino põe no ombro a sacola com os produtos que vai vender na feira. O acompanho até a esquina mais próxima, onde ele estanca para deixar o ônibus veloz cruzar o tempo com destino ao futuro, repleto de soluços e de ilusões.

Em seguida, o menino acena para mim pela janela do ônibus, os cabelos agora brancos, eu choro enquanto estanco na calçada, absorto a contemplar o mesmo tempo que abre e fecha janelas diante da chuva, do sol, do mormaço ou da lágrima.

2. Vejo panelas espalhadas pelo corredor, num tempo de telhas quebradas e medo de tudo. A mancha na parede encoberta pelo quadro do Sagrado Coração. A mãe rezando para não chover, num tempo em que água não fazia falta. Goteiras pingam pingando e o tempo molhado na janela. A noite mastigando sustos. Engole o choro, menino, e esvazia as panelas. A manhã acordando sem remelas, nem parecia que na véspera o mundo ia se acabar. A mãe esticando e torcendo o pano no cimento. O menino espalhando ali o time de botão. A vida voltando a sorrir, simples assim.

3. Ainda olhando para trás vejo Dona Lourdes, que ganhava a vida — já bem comprida — como costureira.
Os dedos tronchos e encarquilhados, atrofiados pela artrose, pareciam pequenas garras retorcidas. Impossível imaginar que daquelas mãos — não conseguiam segurar sequer um copo ou uma xícara — brotasse qualquer atividade delicada.

Mas brotava. Com os cotocos de unhas encravadas enterradas nas próprias palmas, tornavam-se mãos de ourives no manejo da agulha e da linha, na firmeza dos colarinhos, na assimetria dos remendos.
Médicos não tinham explicação para o fenômeno, mas ela a tinha. E nem um pouco fenomenal:

— Deus sabe o que faz.

4. Aos domingos, quando não trabalhava fora, a mãe amanhecia o dia lavando roupas no quintal. Colocava uma bacia sobre o tamborete, ao lado do tonel de água, e ali esfregava os panos, ensaboava, enxaguava e os estendia para secar no varal de arame farpado. O menino via a cena e pensava “quando crescer arrumo emprego e uso o primeiro salário para comprar um tanque de lavar roupas, caprichado no mármore e no cimento.” Só pensava, não falava nada. Vai que não arrumasse o emprego...