João Pimentel: De onde você veio?

Vim do Planeta Janjão, soube que havia uma princesa por aqui

Por O Dia

Rio - Há pouco mais de sete meses ela apareceu na minha vida. Veio no embalo de um grande amor, como um pequenino e doce acessório. Antes mesmo de me conhecer olhou para uma cafeteira e disse para a sua jovem e linda avó: “Vovó, o nome do seu namorado é Cafeteira”. E, pela primeira vez em minha história, na cabecinha deliciosa da Maria Eduarda, Janjão passou a ser meu nome e Cafeteira o apelido.

O tempo passou e aos pouquinhos, bem mais pouquinho do que eu queria, criamos um pedacinho de intimidade. E lá fomos eu, Duda e Marcela, a vó, para um parquinho em Itaipava. Ajudo a levar seus brinquedos, pulo, corro, levo areia na cara, nos sapatos, ela escala, sobe no balanço, mostra o cavalinho e pede para eu carregá-la no colo. A emoção de estar com aquela coisinha de quatro anos nos braços — contando até dez e cantando o abecedário com uma boneca irritante — não tem preço.

Então ela comenta que a avó havia perdido um anel no deque da piscina em um outro dia qualquer. “Me lembro”, eu disse, me fazendo presente em seus devaneios. “Lembra não, você não existia”, veio a resposta na lata. Mudamos de assunto e corremos de novo e pulamos e levei areia na cara, etc. Aí Marcela diz que a neta adora Carnaval, que foram a uns bailinhos no ano passado. O bobão aqui brinca: “Pô Duda, você nem me convidou!”. Tive que ouvir novamente: “Mas você não existia!”.

Mas foi na subida da ladeira, já suado, cumprindo ainda a função de carregador da Duda, que veio a questão essencial do dia. Sim, porque não há um dia que ela não proponha algo para se refletir. “Cafeteira, de onde você veio?”.

Boa pergunta para quem está, vez por outra, se perguntando para onde vai. Naquela cabecinha genial um dia eu apareci do nada, do lado da avó, entrando em um mundo fechado de pai, mãe, tias, bisavôs, bisavós, tudo em seu devido lugar. Ela tinha razão de me perguntar aquilo, apesar da pouca idade, e fez sentido.

Lembro que uma vez na faculdade entrevistei um doidão famoso de Ipanema, o Daminhão Experiença que, segundo consta, pirou quando foi abandonado pela mulher e passou a andar pelas ruas do bairro com seus discos embaixo do braço. Disse-me que se teletransportava para um tal planeta Lamma e voltava de lá com canções feitas no dialeto local, o lammês. Depois do transe, traduzia para o português e gravava. Ele não sabia, em sua sandice, que o planeta Lamma é aqui em Mariana, na França, na Síria, em Brasília.

Ou seja, a reflexão menos interessante no mundo de hoje é para onde vamos, mas por que e como chegamos até aqui. Por que enchemos de lama o nosso planeta tão rico? Por que o ser humano é capaz de proezas admiráveis e atitudes estúpidas, medievais, covardes? Com isso tudo na cabeça e uma Duda nos braços, achei por bem dar uma resposta fantasiosa: “Vim do Planeta Janjão, soube que havia uma princesa por aqui. E quando descobri que ela era avó de uma outra princesa, resolvi ficar”.

Ela fingiu que acreditou, pulou do meu colo e entrou correndo na casa, já saudosa da sua presença, atrás dos seus lápis de cor.

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