Bia Willcox: Sobre inveja, dor e córtex cerebral

Somos muito mais reféns de nossos impulsos, hormônios e instintos do que supõe a nossa (pseudo) razão

Por O Dia

Rio - Eu já falei disso aqui, mas não me canso de repetir: somos muito mais reféns de nossos impulsos, hormônios e instintos do que supõe a nossa (pseudo) razão. Sentimentos positivos de felicidade por exemplo. Os fatores que os provocam em nosso meio exterior e interior são múltiplos, mas a alquimia cerebral responsável efetivamente por tal sensação é a serotonina e a endorfina.

Da mesma forma, algo acontece em nosso cérebro com a inveja e a cobiça. Queremos ter o que o outro tem, queremos ser o que o outro é, queremos sentir o que o outro sente. Essa é a verdade feia sobre a nossa condição. E esse sentimento provocado por fatores também múltiplos, ativa uma região em nosso córtex que é também responsável pela dor física. A dor de não ter. A dor de querer sem ter. A dor da falta. A dor da autoestima. A dor da não aceitação do que se é. E dói.

Somos muito mais reféns de nossos impulsos, hormônios e instintos do que supõe a nossa (pseudo) razãoDivulgação

Deve ser por isso que o prazer de alguns dói tanto em outros. Dói pelo fato de ser ausente em quem se incomoda. O que fazemos com nosso corpo, onde tocamos nossas mãos, nossa boca, como gozamos, com quem gozamos, onde sorrimos, quando gargalhamos, quando parecemos mais jovens do que somos, quando levitamos de alegria — provoca sensação de dor física em quem não sente o mesmo. Inveja é dor e ainda não sabemos bem como manipular o cérebro. E confesso que não sei se tão cedo saberemos. Julgar o prazer do outro, julgar a felicidade do outro, os amantes do outro, o sexo do outro é uma dor enviada pelo nosso córtex.

Não, não digo que é simples. É complexo, principalmente porque achamos que incomodamos o outro com nossa felicidade porque ele tem um caráter duvidoso ou uma personalidade ingrata. Talvez seja mais que isso. Ou menos. Por via das dúvidas e até que se descubra mais, fico com o que ouvi de um colega: “Não grite sua felicidade que a inveja tem sono leve”. E acrescentaria: fale baixo a sua felicidade que o córtex ainda é involuntário.

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