Por karilayn.areias
Publicado 30/11/2015 20:16 | Atualizado 30/11/2015 22:20

Rio - Foi no século passado, mas não foi no interior da Bahia. Bem na viradinha, no fim dos 1900. Mais que isso não consigo precisar. Em uma rara tentativa de fazer samba com o grande compositor Mario Lago Filho. Mas o resultado não ficou, digamos, muito apresentável. Nem a ajuda luxuosa do cantor Chamon era capaz de nos incluir na disputa do samba do Simpatia É Quase Amor. Então, surgiu a ideia de inventarmos um parceiro de peso e uma história trágica na disputa. Seu nome seria Manoel Cachaça.

Mais precisamente Manoel Ferreira da Silva e Souza, que ganhou o apelido, assim como seu colega mangueirense Carlos, por gostar bastante de uma branquinha. O Cachaça em questão não tinha a notoriedade do parceiro de Cartola, mas era querido no meio do seu pessoal ali pelas bandas do Horto.
Sua vida foi a de um homem comum. Poucas vezes saiu daquele circuito entre a Rua Jardim Botânico, o início da Gávea e a subida da Dona Castorina, ali mesmo no Horto. Trabalhou dos anos 30 aos 60 numa fábrica de tecidos que havia por ali, viu o bairro ser povoado justamente por operários, gente simples como ele e se encantou, namorou muito e bebeu litros de cachaça nos desfiles do Bloco da Bicharada, invenção do compositor Haroldo Lobo.

Nos dias que antecediam a folia, frequentava o improvisado barracão na Rua Jardim Botânico 750, onde metia a mão na goma e nos jornais velhos para produzir elefantes, macacos, tigres e pavões em tamanho natural. Mas sua paixão era o Carnaval de rua e a arte de fazer versos e melodias. Não gostava de politicagem — sim, isso já existia — nem pensava em dinheiro. Queria apenas compor, cantar e ver suas músicas cantadas por sua gente. Trocava sua arte por uma boa aguardente e achava que estava no lucro. É claro que em sua altivez e humildade foi explorado por quem vive de se apropriar do talento alheio. Mas e daí? Era uma cara feliz.

Casou, teve filhos, netos, abandonou o Carnaval e a “marvada” por conselhos médicos. Mas já descansado, quietinho, ouviu certo dia dos anos 1990 o som de uma bateria animada. Não sem algum esforço, levantou-se da cadeira de palhinha e foi seguindo seu instinto folião. Chegou na Rua Abreu Fialho 12, no mesmo Clube Condomínio onde costumava ver as peladas de seus netos e ficar para a resenha, lembrando histórias de antigos Carnavais.

Decidiu que não morreria sem fazer uma música para o bloco das cores do Engov. E em um botequim imaginário nos reunimos, eu, o pinguço regenerado e Mariozinho Lago para compormos o tal samba em amarelo e lilás. Mas Manoel Cachaça morreu. Um colega de redação se deu ao trabalho de fazer um desenho daquele negro bonito, de cabelos e bigode de algodão. Pregamos um cartaz na quadra com os dizeres, “Obrigado Manoel Cachaça”. Inventamos parentes, outras histórias e até um gurufim glorioso.

Mas não deu. Perdemos a disputa, mas não perdemos a piada. Hoje eu vejo que aprendi com o Manoel Cachaça que a vida deve ser uma grande brincadeira, e que não podemos deixar a poesia e os sonhos pela estrada. 

Você pode gostar