João Roberto Kelly diz que é difícil uma marchinha fazer sucesso hoje em dia

Ainda assim, ele vai lançar nova composição: 'Eu Quero Dinheiro'

Por O Dia

Rio - Coroado nos anos 60 como o ‘Rei das Marchinhas’, João Roberto Kelly ainda se emociona quando vê sua obra embalar os foliões do Carnaval nas ruas e nos salões. “A maior alegria da minha vida é ver minhas músicas passando de uma geração para a outra. Todos os blocos tocam as minhas marchinhas. Não ouço isso com os ouvidos, mas com o coração”, diz o autor de ‘Cabeleira do Zezé’, ‘Colombina’, ‘Mulata Iê-iê-iê’, ‘Maria Sapatão’ e ‘Bole-bole’. Um pouco da história de alguns de seus sucessos Kelly narra no livro ‘Cabeleira do Zezé e Outras Histórias’ (Ed. Irmãos Vitale, 163 págs., R$ 47), que será lançado na quarta-feira, às 19h, no Bar Garota de Copacabana, em Copacabana.

“É um livro de memórias bem-humorado. Não é uma biografia, mas conto um pouco da minha vida”, resume o compositor e pianista, de 77 anos, que aproveitará o evento para mostrar, acompanhado da banda do Cordão da Bola Preta, sua nova marchinha: ‘Eu Quero Dinheiro’. “O Tim (Maia) cantava que não queria dinheiro por razões sentimentais. E eu quero por razões político-econômicas”, brinca.

João Roberto Kelly narra sua trajetória em livroJoão Laet / Agência O Dia

Se a música vai pegar, é outra história. Kelly está disposto a gravar com o Bola Preta, mas reconhece que fazer sucesso, hoje em dia, está mais complicado, porque “falta divulgação”. “Não toca mais nas rádios e há poucos programas de TV como o do Chacrinha. Antigamente, a gente gravava a marchinha em novembro. Um mês depois, já estava arrebentando e chegava no Carnaval estourada. Não se faz um sucesso em 24 horas”, critica.

Foi sentado à mesa de bares, bebendo e jogando conversa fora com os amigos de boemia, que João Roberto Kelly criou boa parte de sua obra. “Minha inspiração é o dia a dia, a vida real”, garante ele, que assume: “Sempre fui homem de bar e botequim. Cerveja e uísque a gente bebe por causa de amigos e mulheres”.

Em 1963, ao se deparar com um garçom cabeludo, no bar São Jorge, em Copacabana, ele logo o associou à figura dos Beatles e compôs na hora ‘Cabeleira do Zezé’, sua primeira marchinha de sucesso, que estourou no Carnaval do ano seguinte.

“Na época, eu trabalhava na TV Excelsior. Quando terminava o trabalho, ia ao bar São Jorge, na Av. Princesa Isabel, em Copacabana. Um dia, apareceu um garçom de cabelo grande e vestido de forma extravagante, de botinha, na moda dos Beatles. O nome dele era José Antônio, o Zezé. Achei o cara engraçado. Aí, falei pra ele: ‘Se eu fosse um desenhista, faria uma caricatura sua, mas como não sou, vou fazer uma música’”, recorda.

O estalo para compor ‘Colombina Iê-iê-iê’ surgiu no restaurante Alcazar, também em Copacabana, onde o compositor tinha lugar cativo. Acompanhado de amigos, ele observava toda noite um casal que se sentava à mesa ao lado. “Eles não falavam nada. O cara só ficava olhando para ela. Depois, saíam e entravam no edifício em frente ao restaurante. Iam namorar, fazer amor... No Carnaval, ela surgiu diferente, mais moderninha, decotada. O cara, que era mais sóbrio, ia embora depois do encontro, e ela ia à discoteca onde era o restaurante Saint-Tropez e se acabava. Era a colombina iê-iê-iê”, conta.

No livro, com coautoria do cineasta André Weller, o compositor revela sua paixão pelo Carnaval desde a infância. “Eu já gostava de marchinhas, ranchos”, lembra ele, que estudou piano. Paralelamente à faculdade de Direito, começou a trabalhar fazendo músicas para o teatro de revista e compôs seu primeiro sucesso, ‘Boato’, gravado por Elza Soares, em 1961, até entrar na TV, passando por emissoras como Excelsior, Rio e Tupi. Foi nessa época também que ganhou fama de namorador, saindo com belas vedetes.

“Eu acabava a noite sempre com uma vedete. E no dia seguinte, eu as levava à minha faculdade, causando o maior burburinho. Elas usavam meia arrastão. Um dia, o reitor me chamou e proibiu a presença delas”, conta ele, casado há 12 anos com Maria Helena. Com a fama, veio o assédio. “O das mulheres não me embriagava, porque fiz faculdade disso”, brinca. 

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