Por karilayn.areias

Rio - Quando eu tinha os meus 20 e poucos anos, e lá se vão outros tantos, uma amiga, Maria, me aplicou a ‘Autobiografia de um Iogue’, do indiano Paramahansa Yogananda, o guru que, tocado por ancestrais, recebeu a missão de levar para o Ocidente os ensinamentos de seu povo. Ainda criança, recebeu sinais em sonhos de seu futuro mestre, de que suas mãe estava morrendo em uma cidade distante e que teria um papel fundamental na disseminação da kriya ioga mundo afora.

Fugiu de casa em busca de sua missão, voltou, encontrou o tal mestre, foi para um eremitério por dez anos até chegar à América em 1920, aos 27 anos, para um congresso religioso. Imagina um indiano gorducho, de turbante laranja, falando de uma religião que ninguém imaginava existir, nos Estados Unidos do início do século passado.

Pois ele fez muito sucesso com seu discurso ‘A Ciência da Religião’. Preferiu mostrar através dos ensinamentos da ioga exercícios e posturas para um melhor fluxo energético, para o alcance de um poder de concentração que levasse o corpo a chegar próximo à perfeição pelo poder da vontade. Também, em seus discursos e nos ensinamentos que enviava pelo correio aos discípulos, lembrava no coração do capitalismo selvagem que o ‘ser’ era bem mais importante que o ‘ter’.

Há pouco tempo, passando numa livraria, dei de cara com o tal livro, escrito em 1946. Não resisti, comprei e reli a obra que beira o realismo fantástico pela sua forma que, apesar de simples, mostra o irreal, o estranho como algo comum. A linguagem direta de Yogananda certamente facilitou a assimilação de seus ensinamentos, seguidos por gente como o maestro Leopold Stokowski, pelo beatle George Harrison e pelo criador da Apple, Steve Jobs.

Há tempos, também encontrei um mapa astral feito por uma amiga da minha avó Vera, em 1998. Ouvi a fita k7 e fiquei tocado por muita coisa que foi dita lá atrás. Deu uma saudade enorme da mãe de meu pai. Peguei um cartão amarelado e tentei um telefonema. Pois não é que encontrei a astróloga de nome Léa? Fui lá e fiz a minha revolução solar, a atualização do que os astros indicam hoje para mim. Ouvi sobre karma, dharma, sobre a tendência de eu mudar o rumo da minha vida profissional, da necessidade de buscar um equilíbrio e saí de lá leve.

Isso foi na terça. Na quarta, assisti ao filme ‘Awake — a Vida de Yogananda’, ainda em cartaz, um ótimo relato da passagem dele por aqui, uma missão de paz que conviveu com os ruídos das bombas da Segunda Guerra e enfrentou toda a estupidez humana.

No domingo, acordei às 6h com uma pobre alma enlouquecida na escadaria que dá de frente para a minha janela. O sujeito blasfemou por umas quatro horas sem parar contra a PM, contra uma tal de Lúcia, contra o delegado, que não deve ser o eterno passista da Mangueira, contra o PT, o Cunha, ele mesmo e a humanidade. Fiquei pensando que karma secular era aquele, que ele também precisava de mais equilíbrio e, por fim, que tamanha ausência de carinho o levou àqueles degraus de cimento frio.

Senti muita pena daquele homem. Pensei em emprestá-lo a autobiografia mas, por fim, me deu vontade mesmo foi de sentar ao seu lado, dar-lhe um abraço e gritar e chorar pela humanidade. 

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