Por karilayn.areias
Compositor e cantor Chico BuarqueDivulgação

Rio - As imagens que mostram o compositor, intérprete e escritor Francisco Buarque de Hollanda sendo verbalmente agredido à saída de um restaurante da Zona Sul chegam às redes sociais justamente no momento em que um documentário sobre sua vida reluz nas telas do Brasil.

Se o leitor ainda não viu, vá e veja. ‘Chico — Um Artista Brasileiro’, de Miguel Faria Jr., oferece ao espectador uma rara oportunidade de entrar na intimidade do autor de tantos clássicos da música popular brasileira. É também uma viagem a um Brasil de outros tempos. Um Brasil cordial, criativo, resistente. Um Brasil, enfim, com um belo futuro pela frente.

Muito diferente, portanto, do Brasil que emerge das imagens espalhadas virtualmente. Ali, o que mais impressiona é a ignorância desavergonhada e a total falta de respeito. Chico é xingado por suas posições políticas e por “morar em Paris”. Não se trata de um questionamento democrático, de quem tem o livre direito de pensar distintivamente. É pura raiva, intransigência, estultice.

Com certeza, os agressores não têm ideia do estrago que fizeram num jantar que reunia um grupo importante de intelectuais do país. Além de Miguel Faria Jr., reconhecem-se as presenças dos cineastas Cacá Diegues, Ruy Solberg e do contista e tradutor Eric Nepomuceno, que estavam com Chico. Imagino o alto nível do papo dessa mesa, onde muito se deve ter falado sobre cinema, música, política e futebol. Mais uma das tantas aulas que os boquirrotos devem ter perdido na vida.

Não se deve agora, diante de tamanha ignorância, responder nos mesmos termos. Todos hoje somos, para o bem e para o mal das redes, formadores de opinião. Portanto, abandonemos a virulência e celebremos a grande obra de Chico Buarque. Desta coluna, cumpro a função lembrando que Chico compôs temas imortais para filmes como, por exemplo, ‘Dona Flor e seus Dois Maridos’, de Bruno Barreto, ‘Bye Bye Brasil’ e ‘Joana Francesa’, ambos de Cacá Diegues, obras que nunca devem ter iluminado as telas LED dos parlapatões.

Ensinemos aos ignóbeis que o pai de Chico era paulista, o avô pernambucano, o bisavô mineiro, o tataravô baiano. É um artista brasileiro, na estrada há muitos anos, que não merece o achincalhe das esquinas em que a delicadeza morre a cada dia. Feliz natal, malandro! 

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