João Pimentel: Sorte

Brindamos, beijamos, beijamos, brindamos. Abraços, beijinhos e carinhos sem ter fim de todos os lados

Por O Dia

Rio - Essa aconteceu comigo no primeiro dia do ano. Estava em São Pedro da Serra, distrito de Nova Friburgo, o meu cantinho no planeta. Por motivo de trabalho e para festejar o aniversário de uma amiga, Adriana, no dia 30 de dezembro, só pudemos, eu e Marcela, subir a serra no dia 31. Pensei: “Tudo bem, não vai ter ninguém na estrada”. E não tinha mesmo, até o quilômetro 138 da Rio-Teresópolis, quando, sabe-se lá por qual motivo, meia dúzia de gatos pinguços decidiram comemorar os estertores do finado 2015 fechando a estrada com galhos de árvore.

Peguei estradinhas vicinais, liguei o som, respirei fundo, fiz de tudo para não demonstrar a minha insatisfação. Era o último dia do ano e eu estava viajando feliz com a minha namorada. Nada nos pararia. Demorou, mas passamos da barreira.

Já em casa, separei a roupa do Réveillon. Um bicheiro diria que eu cerquei por todos os lados. Camisa branca da paz, cueca idem, novinha em folha, bermuda amarela porque sem um capilé a vida fica difícil e um tênis vermelho para garantir as coisas do coração. Nos bolsos, um cartão de débito, uma nota de cem reais e um batom da Marcela para retoques finais ou iniciais da virada. Já com um champanhe na mão rumamos para a praça da cidade onde encontramos amigos e onde rolava um show no caminhão-palco, coisas de uma região repleta de artistas. Uma maravilha de cenário.

Brindamos, beijamos, beijamos, brindamos. Abraços, beijinhos e carinhos sem ter fim de todos os lados. No ateliê do Marcelo estava uma turma da pesada, conversa boa, bebidinhas, o dono da pizzaria ao lado fez a gentileza de liberar uma fornada e o tempo passou como passa nos grandes momentos da vida, imperceptível.

Hora de ir embora. Já em direção ao carro, dou um confere nos bolsos da bermuda e da camisa. Nada. Bateu o desespero, refiz todo o percurso da noite até terminar num bar onde havíamos bebido umas cervejas. Fui ao banheiro e necas. Já desolado, e pior, desprovido de um qualquer, maldizendo minha bermuda amarela, olho pro chão e vejo, entre duas mesas, ela, com a imagem da República de um lado e de uma garoupa do outro, a minha nota de cem. Me abaixo para pegá-la e ainda ouço a voz da Marcela: “Achei o seu cartão aqui no meio da rua”.

Não faço ideia de quanto tempo aquela nota e aquele cartão ficaram me esperando no chão. Voltando para casa, contei para minha companheira uma história de um dia qualquer da infância do menino gordinho que sempre fui. Estava no clube, na hora do lanche, sem um tostão e sonhando com um hambúrguer e um refrigerante. Então alguma coisa se passou pela minha cabeça e comecei a andar olhando para o chão. Não demorou muito, achei uma nota dobradinha no gramado perto da piscina. Era o valor exato que eu precisava para saciar a minha fome.

Vez por outra quando confiro os números da Mega-Sena eu lembro desta passagem e penso: “Pra que gastar a sorte toda de uma vez? O que viria depois?”. Aí olho pro chão em busca de um dinheiro pro chope.

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