João Pimentel: Um remedinho chamado arte

Todos caem na mesma colcha de retalhos rasa de se falar das notícias

Por O Dia

Rio - Os principais blocos da retomada das ruas da Zona Sul carioca, a partir de meados dos anos 80 do século passado, tinham características próprias. O Barbas, por exemplo, da turma que frequentava o bar homônimo, do Nelsinho Rodrigues, apesar de representar a turma da esquerda que foi à luta, que levou na cara e permaneceu firme, sempre reverenciou Botafogo e seus compositores. O Suvaco do Cristo, da turma de Jards Macalé, tinha, por sua vez, a cara da irreverência carioca, do bom humor.

O Bloco de Segunda se notabilizou por sambas de crítica política, pela piada de duplo sentido, enquanto o Simpatia É Quase Amor era o fiel representante da alma lúdica do carioca. Já o Imprensa Que Eu Gamo surgiu como um bloco de jornalistas, brincando com as agruras da profissão, com plantões e pescoções.

Tenho notado, já há alguns anos, que, tirando o Simpatia e, em parte, o Suvaco, todos os blocos caminharam para o lugar comum no quesito samba. Todos caem na mesma colcha de retalhos rasa de se falar das notícias e personagens em evidência. Era mais que previsível que, este ano, por exemplo, quase todos caíssem em imagens fáceis como “vai tomar no Cunha”, ou “deu zica”. Fazer este tipo de samba é parecido com escrever uma música usando frases de outros compositores. Parece fácil, mas na maioria das vezes fica sem graça, sem sentido. Dá para fazermos melhor.

Isso ficou evidente para mim ao participar do júri do “Tá pirando, pirado, pirou”, bloco criado há 12 anos pela turma da saúde mental. O trabalho de inclusão social realizado por eles, que também abraçam a luta antimanicomial, é fabuloso. E a disputa pelo melhor samba deveria ser observada por nós compositores de Carnaval.

Das 15 músicas apresentadas, feitas por pacientes, algumas em parcerias com médicos e musicoterapeutas, algumas traziam frases geniais, profundas, reflexivas da própria existência. Estavam ali a busca da liberdade, da consciência, da identidade, tudo. Pirados ou não, ali a sensação é a de que todos saem vencedores.

No final, duas das estrelas da companhia brigaram pela vitória voto a voto. O puxador do bloco, André Poesia, que se transforma em um Jamelão quando sobe ao palco, botou pra quebrar e juntou todo mundo na mesma loucura: “Ninguém sabe quem é normal nesse Carnaval”. Já o vencedor entre os vencedores, Hamilton de Jesus, perguntou para mim, para você e para outros que estão pirando por aí: “Como é, amigo?/ Caiu na depressão?/ Já tomou seu remedinho pra acabar com a confusão?”. E explicou que Medicina não é só isso que se vê: “A arte é um outro remédio/ Corre junto à vida”.

É isso, precisamos nos esmerar mais com esse remedinho chamado arte.

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