Por tabata.uchoa

Rio - Parodiando o cronista Ivan Lessa, que um dia cravou “O Brasil não é para principiantes”, digo aqui que o Rio também não é. Nem para principiantes nem para desatentos. Entre a beleza e o caos, os verões de todas as modas e as balas perdidas que teimam em não sair de moda, a cidade é show de arquitetura construída ou espontânea, desde o dia em que nativos e invasores colocaram os pés ou os olhos nela.

Baiano de nascimento e Carioca Futebol Clube (além de Flamengo e Mangueira) desde que me entendo por belezas, não posso deixar de registrar aqui a importância do delicioso álbum de imagens (e textos) que acabo de ler e de admirar: ‘Rio Belle Époque’, da Editora Bem-Te-Vi. Organizado e prefaciado pelo poeta Alexei Bueno, um carioca vinte e quatro horas por dia a serviço da cultura universal e das reentrâncias mais ricas de sua cidade, o volume que chega às livrarias ainda por conta dos 450 anos, passeia pelo século de ouro da modernização e deslumbre do Rio (o século passado).

O belíssimo texto de Alexei vem varrendo o carioquês a partir da posse do presidente Rodrigues Alves (éramos a capital da República e a partir de sua chegada tem início o período que se chamou de belle époque carioca), do trabalho de prefeitos empreendedores como Pereira Passos (“Um momento de otimismo e júbilo na cidade”), ancorado nas ideias revolucionárias de engenheiros como Paulo de Frontin, Francisco Bicalho e Vieira Souto, passando pela Revolta da Vacina que a inquietação de Oswaldo Cruz desencadeou e pela construção da Avenida Central (Atual Rio Branco).

O riquíssimo acervo que compõe a obra faz parte da coleção particular do pesquisador e escritor Sebastião Lacerda (a partir de frágeis e delicados negativos de vidro), infelizmente sem a identificação dos autores. Se é de se lamentar não poder creditar as autorias, é de se festejar que alguém tenha buscado, encontrado e guardado tantos momentos preciosos.

Estão ali, entre outros, registros da Igreja do Bom Jesus do Calvário, (construção iniciada em 1719), e o hospital anexo, lindezas desaparecidas da paisagem em 1942, para a abertura da Avenida Presidente Vargas; detalhe da cabeça do Cristo Redentor, antes da portentosa montagem no Corcovado; o lindo monumento ao almirante Barroso, ainda em seu espaço original, na Glória, antes da transferência para a Praça Paris; uma vista magnífica e de doer os olhos da Enseada de Botafogo, morros à volta todos preservados; e inúmeras imagens da vida, glória, resistência e posterior derrubada do Morro do Castelo.

Ou seja: tem beleza, grandeza, fortaleza e também muito destempero, desmonte e dor. Tomo a liberdade de transcrever nesta crônica os versos de Olavo Bilac, lembrados pelo autor de ‘Rio Belle Époque’: “A natureza aqui, perpetuamente em festa / É um seio de mãe a transbordar carinho”. Bons tempos, hein?!

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