Por luis.araujo
Rio - Como o compositor Nelson Sargento diz em uma de suas obras-primas, o samba agoniza, mas não morre. E a julgar pela idade, completando 100 anos, a saúde desse velho senhor, o gênero musical, vai bem, obrigado!
“Não agoniza mais! Ainda tentam puxar o tapete do samba, mas não adianta. Somos fortes, cantamos nas ruas, nos botequins, nos quintais. Passamos por caminhos tortuosos, na época do iê-iê-iê as rádios não queriam saber da gente, resistimos e hoje estamos aí”, exalta o compositor Monarco, um dos bambas que se apresentam no projeto ‘Rodas do Samba Carioca’, a partir do dia 23, às 19h30, no Teatro Sesc Ginástico.
Sambistas fazem turnê no Teatro Sesc para celebrar 100 anos do ritmoReprodução

Os shows vão reunir no mesmo palco, durante três semanas, sambistas consagrados e as mais tradicionais rodas de samba do Rio, como Samba do Ouvidor, Pedra do Sal e Samba do Trabalhador. Tudo para comemorar o centenário do gênero musical, cujo nascimento histórico é considerado o registro do samba ‘Pelo Telefone’, de Donga e Mauro de Almeida, em 1916, gravado no ano seguinte por Baiano. “Já escolhi o repertório, vai ter muito samba de raiz, de terreiro e meus sucessos. Gosto de deixar o pessoal cantar comigo. Vai ficar bonito”, adianta Monarco, integrante da Velha Guarda da Portela e autor de clássicos como ‘Coração em Desalinho’, que dividirá o palco no dia 23 com o Samba do Ouvidor, roda formada por jovens músicos e realizada quinzenalmente aos sábados na Rua do Ouvidor, no Centro.

Sambistas fazem turnê no Teatro Sesc para celebrar 100 anos do ritmoReprodução

Quando surgiu no início do século XX, reunindo músicos nos morros e nas casas das famosas ‘tias baianas’, descendentes de escravos, como a Tia Ciata, o samba era marginalizado e mal recebido pelas elites. Até o batuque se popularizar e ganhar os salões. “Entrou até no Municipal! O samba é democrático. Hoje, todas as classes aceitam o samba de coração aberto. É um ritmo quente”, celebra Monarco, que cantarola os famosos versos da música de Dorival Caymmi, ‘Samba da Minha Terra’: “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou doente do pé”.

Sambistas fazem turnê no Teatro Sesc para celebrar 100 anos do ritmoReprodução

Para o sambista capixaba Mackley Matos, o samba está no sangue, no corpo e na alma do brasileiro. “Estou no Rio desde 2004. Samba é convivência diária. Aqui a gente respira samba o dia inteiro, a cidade tem o ritmo enraizado”, diz Mackley, que se apresentará no dia 9 de março com o Samba do Trabalhador, roda liderada pelo compositor Moacyr Luz no Clube Renascença desde 2005. “Trabalhei com Moacyr por quase dois anos. Fiz parte do seu último DVD. Para mim, é uma honra tocar com ele”.

No Candongueiro, em Niterói, o sambista Ilton Mendes, 70 anos, não deixa o ritmo ser esquecido, organizando rodas todo sábado. Mas ele acha que o gênero já teve dias melhores. “Não toca mais em lugar nenhum, ninguém sabe mais quem é um Nelson Cavaquinho, um Guilherme de Brito. O Candongueiro é um porto do samba há mais de 25 anos”, defende. No dia 8 de março, ele subirá ao palco do Teatro Sesc Ginástico ao lado de Nilze Carvalho, que já se apresentou em sua casa. “A gente torce para aparecer gente nova cada vez mais.”