Por tiago.frederico

Rio - Bela, Recatada e do Lar. Permitam-me brincar com a nova onda do momento. No momento em que vocês lerem essa coluna, possivelmente ninguém estará falando mais tanto disso. Falo de uma matéria da revista Veja sobre a Marcela Temer, futura primeira-dama do país ao que tudo indica. Um posicionamento assustadoramente retrógrado e machista, valorizando a posição coadjuvante da mulher do Michel Temer, ainda vice-presidente do Brasil. Como se o papel mais acertado das mulheres fosse ao lado de seus maridos, sem chamar à atenção (recatadas), sem liderar nada a não ser os empregados e afins da casa (do lar) e com tempo suficiente para se cuidarem (belas). Aqui é o mais longe que vou na análise do posicionamento da revista e do horror de subliminari ?e dade que ela deve ter querido fazer uso.

Quero brincar com a análise de prisma único que nos valemos ao criticar a legenda atribuída à Senhora Temer. Vamos lá:

1- Sobre ser bela: Toda a mulher pode ser bela desde que: 1) tenha talento e bom gosto pra se embelezar, 2) tenha dinheiro para tratamentos na pele, cabelo e corpo, 3) tenha bons níveis de autoestima (beleza exterior sai de dentro também!), 4) tenha algum tempo dedicado a tornar-se bela (lembrando que tempo é relativo e subjetivo), 5) tenha borogodó, mesmo que com cabelos despenteados, unhas não-feitas e pele queimada demais.
Portanto, podemos ser executivas, artistas, mães de muitos filhos e sem babá, empreendedoras, médicas, advogadas, governantes, e, ainda assim, sermos belas.

2- Sobre ser recatada: Ao invés de pensarmos nisso como defeito ou alusão a uma mulher reprimida ou ofuscada, pensemos no recato como ter classe, elegância e personalidade. Todas, mas todas, devem almejar ser, ao menos de vez em quando, finas de gestos e atitudes, saber ser elegante nas cores, nos decotes e nas palavras e, ? almejar? ser low profile, sem precisarem por isso abrir mão da espo ?n? taneidade, da personalidade e dos posicionamentos invocados, ousados e, por que não, masculinos. Recatada é o novo chic. Não precisamos rejeitar o rótulo, visto de outra forma, ele pode até ser bom.

3- Sobre ser do lar: Nos dias de hoje donas-de-casa cuidam pouco da casa e saem bastante pra cuidar de suas vidas e de suas familias num trabalho árduo de gestão: cuidam de carro, casa, filhos, aulas extras, escola, compras, tratamentos, terapias e muito mais.

Por outro lado, muitas empresárias, profissionais liberais e empreendedoras trabalham de casa, muitas vezes ao lado de seus bebês e filhos. Home office é o novo lar. Sendo assim, todas nós em algum momento somos do lar. P ?a? ra ? a? s que pouco ficam em casa trabalhando, lembrem-se de que a própria Marcela deve ficar fora de casa quase tanto tempo (se não mais) que você.

Longe de querer desmerecer mulheres que não tem seu próprio trabalho, que são discretas e comportadas e lindas, quis brincar com essas palavras e ampliar o discurso. Porque, na real, todas nós mulheres temos versatilidade pra nos adequar a esse e muitos outros perfis. Depois dessa matéria, passamos a nos identificar e perceber que todas podemos ser uma primeira-dama de sucesso no Brasil. Revista Veja, obrigada.

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