Por thiago.antunes

Rio - O que é estranho para muitos, para a escultora australiana Patricia Piccinini pode ser terno e aceitável. Seres mutantes, geneticamente modificados que ao primeiro olhar causam repulsa, geram também empatia. São essas criaturas que ocupam o Centro Cultural Banco do Brasil, a partir desta quinta, até o dia 27 de junho, na mostra ‘ComCiência’.

A exposição tem rodado o país, já passou por Brasília e São Paulo e foi vista por mais de 500 mil pessoas. Para a temporada carioca, Patricia decidiu criar duas novas peças: ‘The Breathing Room’ e ‘Breathfruit’.

Seres absurdos que causam estranheza e ternura invadem o CCBB%2C numa exposiçãoque já foi vista por 500 mil pessoas no Brasil Divulgação

“Estou interessada em descobrir o sentido do que é ser humano no âmbito da engenharia genética e da biotecnologia, e como essas tecnologias influenciam a maneira como nos relacionamos com o mundo. O que eu crio existe em algum lugar entre o que conhecemos e o que está quase sobre nós (a imaginação, ou o futuro). Minhas criaturas, apesar de estranhas e por vezes inquietantes, não são assustadoras. Elas pedem que as olhemos além de sua estranheza, nos convidando a aceitá-las”, ensina Patricia.

A mostra, primeira individual da australiana no país, é habitada por esculturas com criaturas geneticamente modificadas, na fronteira entre o hiper e o surrealismo. As peças foram concebidas pela artista em seu estúdio de Melbourne, na Austrália, e encantam não apenas pela técnica, mas sobretudo porque provocam uma série de reflexões sobre o mundo contemporâneo, dos efeitos da ciência e dos limites morais e éticos do ser humano.

Patrícia Piccinini e a obra Grande MãeDivulgação

‘ComCiência’ reúne alguns de seus principais trabalhos. O espectador vai se deparar com peças icônicas como ‘Grande Mãe’ (uma figura agigantada, que se assemelha a uma macaca e amamenta um bebê), por exemplo.

Para entender ainda mais esse mundo, foi criado um audioguia que permite aos visitantes irem além da percepção visual, ouvindo os sons, as respirações e até a linguagem daquelas criaturas. Patricia afirma que seu mundo é cercado mais de perguntas do que de respostas.

E embora as reflexões propostas por ela nos induzam a questionamentos profundamente críticos dos avanços incontrolados da ciência, a exposição não é sombria, carrega a luz da ternura em suas criaturas. Ao ser questionada sobre o significado da arte contemporânea, ela, mais uma vez, oferece um olhar próximo: “Quando ela realmente nos afeta, pode nos revelar o mundo de uma maneira nova, ou mostrar coisas que não havíamos visto antes.”

Novas peças

Uma das novas criações mais curiosas é o ‘The Breathing Room’ (o quarto que respira). Em uma sala escura, o quarto se propõe a ser uma experiência multissensorial, na qual o público será levado a se sentir como se estivesse dentro de um corpo que está tendo reações emocionais. Ao entrar, por meio dos sons e de uma grande projeção que simula este “mundo interno”, nos integramos ao ambiente. Os estímulos se completam com o movimento do piso, que é executado em sincronia.

A respiração pode ser vista, ouvida e sentida. A artista abre esse quarto e nos inclui como parte da obra. O quarto respira, pulsa; o espectador, imerso nele, mal pode suspirar. É de tirar o fôlego. Assim é o trabalho de Patricia Piccinini, impactante, arrebatador, mas extremamente amoroso. 

'O Substituto'Divulgação

Reportagem de Brunna Condini

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