Cineasta Neville D’Almeida volta às telas após 15 anos afastado

'Não sou politicamente correto. Por isso fiquei fora', diz

Por O Dia

Rio - Foram 15 anos longe dos holofotes, ou melhor, das telonas. Mesmo sem parar de produzir, Neville D’Almeida, ícone do movimento do cinema marginal no país, não lançou nenhum de seus filmes nesse tempo, muitos deles engavetados pelo “pensamento careta” da cúpula da indústria do audiovisual.

“A incompetência, a mediocridade e hipocrisia dos produtores e patrocinadores que colocaram uma censura branca em mim. Porque não sou politicamente correto. Por isso, fiquei fora dos lançamentos e dos festivais durante todo esse tempo”, justifica Neville, que voltou ao cenário com o filme ‘A Frente Fria que a Chuva Traz’, que acaba de estrear.

Bruna Linzmeyer e Chay Suede interpretam jovens que sobem a favelaDivulgação

Uma noite que não acaba nunca, emoldurada pelas belas paisagens da cidade do Rio de Janeiro na corda bamba da beleza e do caos. Esse é o cenário do longa de Neville (livremente inspirado na peça homônima de Mário Bortolotto), no qual se encontra um grupo de jovens endinheirados protagonizados por Chay Suede, Bruna Linzmeyer e Johnny Massaro.

Considerado por muitos um criador de polêmicas, o cineasta continua trazendo às suas produções a reflexão. A tensão sexual de ‘A Frente Fria que a Chuva Traz’ é toda conduzida de forma verbal. Neville volta à cena para contar uma história pungente e vivida no dia a dia das grandes cidades.

“Hoje, está acontecendo no Brasil a cafetinização da favela. A velha classe dominante de sempre quer alugar a favela — buscar droga, prostituir a mulher de lá. Acham que podem comprar qualquer coisa com dinheiro, inclusive a dignidade dos outros. A rua principal do Vidigal está lá do mesmo jeito há décadas e ninguém chega para apresentar melhorias”, aponta o cineasta.

Bruna Linzmeyer e Chay Suede interpretam jovens que sobem a favelaDivulgação

Com uma fotografia que evidencia os contrastes do visual azul e cristalino das praias do Rio de Janeiro com as moradias em tons de marrom da comunidade do Vidigal, o longa ainda traz sexo, drogas, conflitos de um grupo de jovens que leva uma vida cheia de excessos. A produção ainda tem participações especiais de Michel Melamed e Flávio Bauraqui.

Para o diretor, não é de hoje que asfalto e morro buscam uma convivência harmoniosa, mas, por outro lado, há também o encontro conflituoso e contraditório sob a ótica da relação dos governantes e policiais nesses ambientes. Há quem suba o morro em busca de diversão em eventos abertos com vista para o mar, mas também tem uma outra parte, com muito dinheiro no bolso, que ‘invade as favelas’ para promover festas privadas, passando por cima dos moradores e hábitos da comunidade.

“O roteiro ser baseado em uma peça de teatro nos dá a liberdade de fazer um exercício criativo de linguagem entre o teatro e o cinema. Eu fiz questão de manter todos os diálogos da peça.” 

Reportagem: Eduardo Minc

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