Daniele Toledo passou 37 dias presa, foi inocentada e agora lança livro

Apelidada por Datena de ‘Monstro da Mamadeira’, a mulher foi acusada injustamente de matar a filha de 1 ano com cocaína

Por O Dia

Rio - Foram 37 dias na prisão, mas a solitária já dura 10 anos. O drama de Daniele Toledo, que ganhou o apelido de ‘Monstro da Mamadeira’, após ser acusada injustamente de matar a filha de 1 ano com cocaína, está nas páginas do livro ‘Tristeza em Pó’ (Ed. NVersos, 176 págs., R$ 34,90), que será lançado na semana que vem. Este ano, completa-se uma década do episódio que ganhou destaque na imprensa, mas, mesmo inocentada pela Justiça, Daniele ainda recebe julgamentos alheios.

É no livro que Daniele, hoje com 31 anos, ganha seu direito de resposta e revela o saldo de toda essa tragédia. Um teste preliminar à base de reagentes químicos detectou cocaína no corpo da bebê. Pouco tempo depois, novos exames deram negativo para cocaína, inocentando a acusada.

“Não tive direito de me defender, muitas pessoas da minha cidade nem sabem que sou inocente. Ainda sou apontada, não saio sozinha, desenvolvi síndrome do pânico, depressão, mas tenho que viver. Meu filho, de 13 anos, precisa de mim”, conta Daniele. As 19 detentas da Cadeia Pública de Pindamonhangaba não perdoaram quando souberam pela TV que a companheira de cela havia matado a filha, chamada Victória.

Apelidada por Datena de ‘Monstro da Mamadeira’%2C a mulher foi acusada injustamente de matar a filha de 1 ano com cocaínaDivulgação

O espancamento de Daniele resultou na fratura do seu maxilar, escápula e clavícula. Além do traumatismo intracraniano e rompimento do nervo ótico e do ouvido, que a deixou cega do olho direito e surda do mesmo lado do corpo.“Tenho essa memória viva em mim. Apanhei muito. Hoje tomo remédios por conta das convulsões que tenho e tomo antidepressivos. Não posso sentir sede, quando fico com sede isso me remete aos dias na prisão, onde fiquei dias sem beber uma gota d’água”, acrescenta.

O apelido de ‘Monstro da Mamadeira’ ainda traz mágoas. “Foi o Datena que me apelidou desse jeito. Não tenho raiva dele, nem ódio, mas mágoa sempre fica. Até agora não chegou nenhum pedido de retratação da parte dele. Nem da polícia, nem dos médicos, da mídia. Se o Datena não tivesse colocado esse apelido, talvez o caso não ficasse tão emblemático, e eu não sofreria tanto.”

Apelidada por Datena de ‘Monstro da Mamadeira’%2C a mulher foi acusada injustamente de matar a filha de 1 ano com cocaínaDivulgação

Já a apresentadora Hebe Camargo, segundo Daniele, que também falou mal dela no ar, se desculpou pessoalmente durante sua participação no programa. “Mas essa parte editaram. Depois, através de seu assessor, a Hebe enviou para a minha advogada, da época, R$ 200 mil. Vim de família humilde, acho que isso foi um pedido de desculpas. Mas nunca vi a cor desse dinheiro, a advogada nunca me repassou”, lamenta.

Daniele acredita que tudo que passou pode ter sido fruto de uma grande armação, já que ela havia denunciado um estudante de Medicina que a teria estuprado no mesmo hospital em que sua filha se tratava. “Ele era filho de um cara influente. Recebi pressão do hospital e ligação anônima pedindo para eu mudar o depoimento. Se me acusassem como assassina da minha filha, a história do estupro ia desaparecer.”

A vida social de Daniele, que mora com a tia-avó de sua filha, ainda é cheia de restrições. “Faz anos que não vou ao shopping. Tomo uma cervejinha muito raramente, mas em eventos dentro de casa. Tenho medo de sair por aí”, revela. Mas, se sua história virar filme, ela vai ter que enfrentar o assédio. E Daniele já tem uma eleita para interpretá-la: Vivianne Pasmanter. “Minha mãe dizia que eu me parecia muito com ela quando eu era mais jovem. Ela tem um rosto sério, acredito que possa fazer um bom papel”, diz.

O final feliz pode parecer estar longe de chegar, mas a autora tem fé. “O que mais doeu foi o fato de eu ficar sozinha na cadeia, sem ter com quem conversar. E os dias que sonhava com minha filha. Tentei me matar, mas hoje vejo que valeu a pena viver”, relata. “Fui presa apenas por um exame preliminar, julgada pela mídia, pelas pessoas. Podem ver minha história como triste, mas acho que minha vida é uma história de superação, para mostrar que as pessoas podem se reinventar e renascer das cinzas.”

TRECHO DO LIVRO

“Com a sola de um chinelo, martelaram toda uma caneta Bic no meu ouvido. A caneta quebrou dentro de mim. Eu sentia o sangue escorrendo quente pela minha orelha. Com o outro ouvido, escutava a gritaria das presas nas outras celas, fora de si, querendo morte. Tentei falar que não tinha feito nada. Ninguém ouvia.”

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