Bia Willcox: No final, tudo dá certo

Nossos problemas não acabaram e a sociedade não deixou de sofrer injustiças, mas as olimpíadas trazem uma trégua

Por O Dia

Rio - Era uma vez uma fase da minha vida em que sofri de ansiedade e depressão. Pra quem me conhece bem, deve ficar dificil imaginar o que vou contar: eu não conseguia falar. Tinha a impressão de que nada voltaria pro lugar e de que o túnel não tinha qualquer sinal de luz. Eis que meu psiquiatra, um renomado médico de cabelo e barbas brancas chamado Edgard Porto, me revelou o maior dos segredos da vida: "Bia, não se assute com o que sente. Você vai ver que no final dá tudo certo."

Quando vi aquele homem sábio e sereno, sem um braço (ele teve um câncer e teve que amputá-lo), me dizendo aquilo, eu tive a certeza de que, mesmo nos momentos mais dificeis, tudo vai dar certo no final. Está sendo assim com as Olimpíadas no Rio. Depois da sensação de impotência, medo, desesperança e saco cheio do Rio, tivemos aquela abertura olímpica pra dizer: "viu? conseguimos sem catástrofes ou micos!" ou "see? we did it!".

Eu não estou aqui dizendo que nossos problemas acabaram ou que a sociedade deixou de sofrer muitas injustiças sociais. Estou falando de trégua, de paz e de se sentir feliz e orgulhoso por ser do Rio e do Brasil. Até numa luta, depois de se apanhar pra todos os lados, é preciso intervalo. A abertura foi o nosso merecido intervalo. Aquele momento em que a gente deseja a eternidade, momento de tradução do que podemos ser daqui pra frente.

Não mostramos nada do que não somos. Não fomos fingidos nem hipócritas. Conseguimos traduzir a nossa diversidade (e até mesmo alguma desigualdade) de forma poética, plasticamente irretocável e muito tocante. Enchemo-nos de autoestima e orgulho, o combustível necessário para acreditarmos em novos caminhos e seguirmos com ânimo rumo aos próximos desafios de sermos cariocas e brasileiros.

Obrigado a todos os envolvidos nessa linda cerimônia (Andrucha, Fernanda, Daniela, Débora e muito mais!) - o que vocês provocaram em nós vai muito além daquele momento ou do evento olímpico. A pira acendeu e, com ela, a crença de que no final pode mesmo dar tudo certo.

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