‘Não faria figuração de escravo’, diz Fabrício Boliveira

Em 'Nada Será Como Antes', Fabrício vive um ator que não consegue trabalho na TV por ser negro

Por O Dia

Rio - A pouca oferta de personagens protagonistas para atores negros é uma das questões abordadas pelo personagem Péricles, vivido por Fabrício Boliveira, em ‘Nada Será Como Antes’, da Globo. O rapaz é um ator de sucesso das radionovelas, mas com a chegada da TV, ele vê o número de personagens bons minguarem. “É uma questão que a gente lida até hoje. São poucos atores negros com destaque e, quando se tem, fazem um alarde enorme. Devemos entender que se existe esse alarde todo, é porque temos um problema”, observa o ator.

Fabrício BoliveiraDivulgação

Na trama escrita por Guel Arraes, Jorge Furtado e João Falcão, Péricles fica diante de uma encruzilhada: ou aceita viver escravos na TV ou vai ser locutor de rádio. Péricles escolhe o segundo. “Imagina eu agora ator não poder mais trabalhar como ator porque não aceitam negros na TV. Está quase acontecendo isso com esse governo que entrou agora”, frisa Boliveira.

Assim como o personagem, Fabrício também preteriria papéis de escravos em que ele não tivesse um enfoque na história. “Por que tenho que fazer escravo? Se me oferecessem personagem escravo para fazer figuração, só participação, não aceitaria. Pelo amor de Deus, essa história tem que parar de ser contada como se a gente fosse um animal que aceitava uma situação. No Brasil tiveram várias revoltas, vários acordos feitos, o negro sempre se colocava. Só que dentro da história são sempre vistos como passivos, pacíficos. Então é uma história mentirosa. Dá o foco para o negão”, cobra.

Contudo, o ator acredita que houve avanço. Não só pelo histórico de trabalhos dele, mas também porque ele consegue ver outros amigos trabalhando. E isso, claro, o deixa feliz. Mas ainda não é o suficiente. “Fiquei dois meses em Nova York e li muito sobre a presença do negro e das ditas minorias no cinema americano. O negro está sempre por trás, sendo o melhor amigo. Mas ele raramente tem família e o recorte da historia não é por ele. Por que que não pode ser? Por que não posso ter um drama pessoal? Por que não posso ter uma mãe, ter toda uma família na TV? Que historia é essa que dentro do Brasil a gente não consegue valorizar o nosso próprio povo? Tem uma questão racial séria e social também. E a gente precisa quebrar isso com a arte”, defende. 

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