Guilherme Arantes critica reality shows de cantores: 'Artista não é julgador'

Cantor diz que seu sucesso, caso estreasse hoje, seria incerto por causa dos vários tipos de mercado da música

Por O Dia

Rio - Com 40 anos de carreira, Guilherme Arantes lembra de ter sido lançado num panorama bem diferente do atual. “Não era uma sociedade tão dividida, com vários mercados que não dialogam”, comenta o cantor paulistano, repassando sua história na caixa ‘Guilherme Arantes 40 Anos — De 1976 a 2016’ (Sony Music), com 22 CDs. O autor de canções como ‘Meu Mundo E Nada Mais ‘ e ‘Êxtase’ acredita que seu sucesso popular, caso estreasse em 2016, seria incerto.

'Aquele Brasil em que o Chico Buarque emplacou ‘Carolina’ não existe mais. Mas%2C de cinco em cinco anos%2C aparece alguém e funciona para todas as tribos'Divulgação/Paulo Avelino

“Hoje, você tem cenas de funk, arrocha, pagode, rap... Aquele Brasil em que o Chico Buarque emplacou ‘Carolina’ e Vinicius de Moraes e Toquinho estouraram com ‘Tarde em Itapoã’ não existe mais. Mas, de cinco em cinco anos, aparece alguém e funciona para todas as tribos, como aconteceu com o Lulu Santos”, diz Guilherme, hoje particularmente de nariz torcido para as competições de voz da TV, como o ‘The Voice’ e o ‘X-Factor’.

“Acho vazio. A música brasileira mistura coisas da África, França, Portugal. Não temos uma música artificiosa em que o canto possa brilhar tanto. Vira um espetáculo circense, um desfile de papagaios. Só retiro o que disse quando vir um João Gilberto saindo de um programa desses. A Nara Leão jamais teria vez lá”, diz, deixando claro que não gostaria de estar na bancada do júri. “Não gosto de ver grandes músicos, colegas nossos, executando esse tipo de papel, que acho escroto. É um papel que um Tom Jobim jamais faria, que um Chico Buarque jamais faria. Lugar de artista é junto com os calouros. Lulu Santos é um calouro, o Carlinhos Brown é um calouro, porque o papel de um artista é o de julgado, não de julgador. Eu até fui jurado no ‘Programa Raul Gil’ durante uma época, mas eu acabava dando 10 pra todo mundo e ficava lá sentado, com cara de pateta”.

A caixa que acaba de sair — e que ganha lançamento de luxo em um concerto de voz e piano no Theatro Municipal, dia 27 de novembro — não traz todos os CDs de Guilherme. Álbuns como o duplo ao vivo ‘Meu Mundo E Tudo Mais’ (de 1990, de cuja sonoridade Guilherme diz não gostar) e ‘Clássicos’ (de 1994, só com versões em português de sucessos estrangeiros) foram deixados de lado. Em compensação, há um CD com raridades que só saíram em compacto. “A ideia foi focar no meu lado de autor. Tentamos pegar faixas que fiz e que estavam fora da minha discografia, também”, conta Guilherme, que incluiu ainda na caixa um livreto de 74 páginas manuscritas (!) contando as histórias por trás dos discos. Uma outra novidade: o cantor está repassando sua carreira em pequenos documentários em vídeo, divulgados em suas redes sociais.

"Sempre tive uma certa inveja da geração do Chico Buarque, do Gilberto Gil, do Caetano Veloso. Eles sempre tiveram uma carreira bastante documentada, com pesquisadores que se debruçavam sobre a obra deles”, conta, afirmando que destacou só o lado fonográfico no texto. “O lado pessoal fica para os biógrafos. Se eu fizesse, ia ficar muito chapa-branca”.

Pelo livreto da caixa, sabe-se que ‘Ronda Noturna’ (seu segundo LP, de 1977, lançado pela primeira vez em CD) teve mil problemas de produção, que uma gravadora chegou a propor uma “reforma visual” em Guilherme, com roupas excêntricas, próximas do brega — e que seu hit ‘Pedacinhos’ chegou a ser descartado de um disco por um produtor, que achou a música fraca. Também brinca que sua fama de “fazedor de hits”, sempre com vendagens modestas, sempre foi tida como duvidosa. “A relação com as gravadoras é um grande embate, e isso tem que ser compartilhado com o público”, diz.

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