Por tabata.uchoa

Rio - Depois de uma semana turbulenta, a coluna faz neste domingo uma homenagem ao amor e à fé. Clara e Thomaz Magalhães: 37 anos de casados, dois filhos e uma história de superação incomum. Um trágico acidente, em 1991, deixou Thomaz paraplégico e, ao invés de separar, uniu ainda mais a família.

Thomaz e Clara com o Papa João Paulo IIarquivo pessoal

LILI: Conte alguma curiosidade do início do relacionamento. 

THOMAZ: Quando eu cheguei a um evento beneficente, onde conheci a Clara, vi um monumento de mulher. Mas quase fui fazendo uma besteira. Uma amiga me disse: “Thomaz, essa aí não é a Clara, essa é a mãe dela!” (risos).

CLARA: No meu caso, foi quando eu perguntei qual era o tipo de mulher dele. A resposta foi: “Só gosto de louras”. Ele disse isso para mim, que sou supermorena! Daí surgiu uma brincadeira entre nós, porque ele diz que sou a loura mais morena que existe.

Thomaz, o namoro durou dois anos e meio. Ficou “chupando dedo” todo esse tempo?
THOMAZ: Naquela época, os valores eram outros. Hoje em dia, o foco é diferente, é outra situação. Mas saber que ela só foi minha e de mais ninguém é maravilhoso. Mas, em compensação, nosso filho nasceu com nove meses de casados... (risos).

Tentou driblar o pai e a mãe da Clara?
THOMAZ: Uma vez, perguntei para minha sogra: “A senhora acredita na minha sinceridade e na da sua filha?” Ela respondeu que sim. Aí perguntei: “Por que não podemos ficar sozinhos?” Ao que ela respondeu: “Porque eu não acredito em vocês dois juntos” (risos).

Vocês sofreram um baque: o tombo que o Thomaz levou durante o hipismo. Como foi isso?
CLARA: Nem eu e nem o Thomaz tínhamos ideia do que é a pessoa paralítica. A princípio, só pensamos que a pessoa apenas deixaria de andar. Mas o Thomaz não conseguia respirar direito ou mesmo pentear o cabelo. Não foi apenas perder o movimento das pernas. Nós entramos em um novo mundo.

THOMAZ: Foram mais de 10 horas de cirurgia. Comecei a ter efeito contrário à morfina, que tinha uma ação alucinógena. Eu via monstros no quarto do hospital. Foi aí então que fui visitado por Nossa Senhora de Fátima.

Como foi essa experiência?
THOMAZ: Toda vez que eu abria os olhos o teto estava com monstros. Eu tinha a sensação de estar deitado em uma lâmina. Não aguentava mais de dor. Foi quando pensei: vou rezar para morrer. A Clara estava no quarto e pedi para que ela saísse.

CLARA: Eu fiquei lá fora rezando o terço. Comecei a pedir em cada Ave Maria para que as dores do Thomaz fossem aliviadas. Eu pedia para ela embalar meu marido no colo e confortá-lo.

THOMAZ: Pela primeira vez, começou a me dar uma sonolência. Continuei rezando e fechei os olhos. Tive a sensação de como se tivesse um braço entrando por trás das minhas costas. Senti também uma mão segurando na minha. E, pela primeira vez, passei a não sentir dor. Era como se eu estivesse flutuando. Abri os olhos e o teto, que antes só tinha monstros, se transformou em um céu estrelado.

CLARA: O Thomaz achou que tinha sido eu que tinha o carregado no colo. Mas contei para ele que havia pedido para que Nossa Senhora o carregasse no colo. Quando ele entendeu o que aconteceu, começou a chorar.

Como foi o encontro de vocês com o Papa?
THOMAZ: Nos falaram que a gente teria dois minutos apenas para dar o nosso testemunho ao Papa, no Maracanã. Passamos o dia anterior cronometrando a fala (risos). No dia do evento, disse ao Papa: “Santidade, eu caminhava muito bem com minhas pernas, mas eu era completamente paralítico de espírito. Tive que cair do meu cavalo para poder começar a caminhar com as pernas do Espírito Santo”.

CLARA: Desde esse dia, começamos a dar palestras. Fomos para fora, México, Chile, El Salvador... Uma família não é apenas formada de momentos maravilhosos, mas se cresce e se mantém com as dificuldades.

Como o esporte entrou novamente na vida do Thomaz?
CLARA: Nas bodas de prata, ele ganhou um esqui aquático dos amigos e se tornou campeão. Conquistou medalha de bronze na Austrália e na Bélgica. 

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