Por thiago.antunes

Rio - “Viver é isso, é inevitável a vulnerabilidade do corpo. Ou você morre cedo, ou estica, e se esticar, que seja da forma mais saudável”, diverte-se Wanderléa, a eterna ‘Ternurinha’ da Jovem Guarda.

Aos 70 anos de vida, e comemorando 50 de carreira, ela ficou com a segunda opção. E parece que o tempo passou bem devagar para a cantora, que tem praticamente o mesmo corpo do início da carreira (“ainda visto minhas roupas do baú da Jovem Guarda”), continua inquieta e com muita energia.

“O segredo é trabalhar. É o compromisso com a geração que me acompanha há anos. Cuido da alimentação, e tem a genética também. Minha mãe morreu com mais de 80 anos, com corpinho de 20. Meu pai era atlético e forte”, revela.

Ternura e juventude para sempre%3A Wanderléa em três momentos exlusivo para O Dia e%2C abaixo%2C no musical. “É a primeira vez que sou dirigida”%2C conta a cantoraMárcio Mercante / Agência O Dia

Um musical, shows e o lançamento do CD ‘Vida de Artista’, em que interpreta canções de Sueli Costa, coroam esse momento, mas nada foi planejado. “As coisas foram acontecendo, felizmente”. Em ‘60! Década de Arromba — Doc. Musical’, em cartaz no Theatro Net Rio,em Copacabana até 19 de fevereiro, ‘Léa’, como é carinhosamente chamada pelos amigos e equipe, se reinventa.

“É a primeira vez à frente de um musical, ao lado de 24 jovens atores maravilhosos. Fiquei emocionada em receber esta homenagem justamente quando a Jovem Guarda também completa 50 anos. Ainda mais neste palco, onde fiz shows memoráveis”, diz Wanderléa.

O espetáculo utiliza imagens misturadas às canções para contar a história da década de 1960, e retrata a era da Jovem Guarda, que Wanderléa, junto com Roberto Carlos e Erasmo Carlos, protagonizou.

“Foi uma abertura, uma explosão, uma expansão cultural, fonográfica, de vestuário, vocabulário, que nós trouxemos para toda uma geração. A introdução dos elementos musicais eletrônicos. A Tropicália veio depois, e estavam lá esses elementos. Foi uma passagem de bastão”.

Mesmo ‘encantada’ pelo projeto do musical, ela confessa que teve receio. “Fiquei com medo de não aguentar o ritmo. Mas minhas filhas (Yasmin, 29, e a Jade, 28), e Lalo California, meu companheiro, produtor de muitos discos, pais das meninas, me estimularam. E está sendo o máximo. Voltei ao ritmo dos 20 anos. Aliás, é parecido, porque aos 20 não tinha nenhuma folguinha”, lembra.

São muitas ‘primeiras vezes’ que a cantora tem experimentado. “Minha filha Jade, que é artista plástica, mas uma cantora incrível, está comigo em cena. Além disso, é a primeira vez que sou dirigida. Não sabia ensaiar. Gosto da emoção da hora, verdadeira. Admiro os atores, que conseguem fazer isso. Mas não podia me permitir engessar, afinal estou ali interpretando a mim. Mas o Frederico Reder (diretor) me guiou nessa experiência com sensibilidade”, conta Wanderléa, e completa: “Estou acostumada a criar sozinha os meus shows. Fiquei pensando: tenho 50 anos em cima do palco, o que vão criar? Mas está sendo surpreendente. E o que eu posso contribuir para ficar mais bonito, faço com muita disciplina”, garante.

Disponível e curiosa, ela só faz questão de preservar sua identidade artística. “Sei bem o que quero. Por conta disso, digo alguns ‘nãos’. Mas é engraçado, porque as pessoas se assustam. Acho que pensam: como é que a Ternurinha diz um ‘não’ tão forte?”, ri a cantora, que confessa estar em êxtase com a receptividade do público. “É a constatação do que eu plantei na minha vida. É um presente de Deus. Chego no hotel, deito e penso: ‘Que coisa linda!’”

A mineira (de Governador Valadares) confessa ser movida à paixão em tudo o que faz. “Tenho uma ‘teenager’ dentro do peito. E quero continuar assim”.

'Léa' em livro

Wanderléa lança sua esperada autobiografia (são 20 anos escrevendo) ainda esse semestre, ao lado do jornalista Renato Vieira. Lá, ela fala de momentos dramáticos, como a perda de um marido (Zé Renato, filho do apresentador Chacrinha), e de um filho (Leonardo, aos dois anos).

Mas quer exaltar seus momentos de glória: “Conto como consegui transformar a dor em energia criativa. Nem todo mundo tem uma história de ascensão profissional que acompanhou as perdas. Vou escrever do ponto de vista dos bastidores da carreira. Mas as outras histórias vão estar lá. Com a tristeza fico forte, viro uma leoa. Depois nem sei como segurei a onda. Primeiro enfrento. Superei minhas perdas com meu trabalho”.

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