Leandra Leal estreia como diretora em 'Divinas Divas'

Documentário conta a trajetória de Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Fujika de Halliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios: a primeira geração de artistas travestis e transexuais do Brasil

Por O Dia

Leandra Leal estreia como diretora em documentárioDivulgação

Rio - Elas são transgressoras, precursoras, divas e estão nas telonas a partir de hoje. Em ‘Divinas Divas’, primeiro filme de Leandra Leal, vemos a trajetória de Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Fujika de Halliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios: a primeira geração de artistas travestis e transexuais do Brasil.

“É uma desconstrução de divas, mostro o lado humano. É sobre a relação de amor e respeito absoluto à arte. Elas são inspiradoras”, reflete Leandra Leal. “É um filme que gera identificação na comunidade LGBT, e isso é maravilhoso. Mas essa é uma camada do filme, que é sobre oito artistas que admiro. É sobre o ofício”, completa.

Além da direção, a atriz está na obra. No documentário, ela explica, por meio de uma narração em off, que foi no palco do Teatro Rival, fundado por seu avô, o produtor cultural Américo Leal, a partir dos anos 1960, que muitas dessas artistas começaram a se apresentar. “Na verdade, eu já estava no filme, é minha história. Durante a montagem, decidimos que teria o off, para pontuar, explicar, já que não é todo mundo que conhece a história do Rival”, diz Leandra, referindo-se ao teatro, que depois do avô, passou a ser administrado pela mãe, Ângela Leal, e hoje é gerido por ela e o marido, Alê Youssef.

AS DIVAS

Jane Di Castro, uma das artistas retratadas, conta que a ideia do filme surgiu em 2008, quatro anos depois de montar no palco do Rival o espetáculo homônimo. “A Ângela (Leal) chamou, e idealizei o projeto. Nos apresentamos com ‘Divinas Divas’ lá em 2004. Anos depois, a Leandra propôs fazer o documentário. O filme é um sonho, e a direção dela é muito sensível. Pensar que vi Leandra na barriga da mãe... E agora nós e nossas histórias estão eternizadas”.

Com 69 anos e 50 de carreira, Jane salienta que a vida das ‘divas’ não foi só de glamour. “Vivi uma época de repressão. Entrei em cana algumas vezes por estar vestida de mulher. Saía do show e me ‘camuflava’. Já me tiraram do táxi e me colocaram no camburão. Passei algumas noites presa, passando todo tipo de constrangimento”, revela.

Jonas Miqueias%2C Brigitte de Búzios%2C Rogéria%2C Divina Valéria%2C Eloína dos Leopardos e Fujika de HallidayDivulgação

Apesar de exaltar o avanço nos direitos LGBTs, a artista reconhece que há um retrocesso nos dias atuais. “Nós, que viemos antes, somos sobreviventes de um tsunami”, brinca. “E é triste ver ainda hoje o preconceito sendo jogado para fora com todo ódio que vem dele. As novas gerações devem ver o filme e perceber como a arte transforma qualquer realidade”.

Outra ‘diva’, Rogéria, 74, concorda e diz que o filme de Leandra vem para emocionar e levantar a bandeira do amor à arte e do respeito pelas diferenças. “São tempos brutais. Corrupção, intolerância, preconceito religioso. Não achei que fosse viver para ver nada tão tenebroso desde a ditadura. Era muita tristeza ver tantos artistas saindo do país”, desabafa.

Bem-humorada, a artista se declara ‘a travesti da família brasileira’: “São 53 anos de estrada. E as outras artistas que estão conosco também têm trajetórias lindas, sólidas. Mas vou te dizer, o brasileiro gosta de mim! Me para na rua, chama para tomar café. Outro dia, uma senhora me disse: ‘você não é o maior travesti do país, você é o maior artista’. Isso é muito carinho”.

Rogéria afirma ainda que não tem histórias de preconceito que tenham marcado sua biografia, mas que a luta pelos direitos de todos é fundamental.

“Eu, por acaso, sou feliz de também ser o Astolfo. Mas tem quem não seja e defendo esse direito. Nunca quis ser mulher, gosto de parecer mulher. E outra coisa, não levo desaforo. Se meteu comigo, encarno a Bette Davis (atriz america conhecida por suas personagens ‘más’), e sai de baixo”, diverte-se ela. “Esse filme mostra como a arte significa a vida também. Se não fosse artista, seria apenas um bom maquiador e um bom cabeleireiro, e deixaria de dar vazão à minha expressão”, completa.

DIFICULDADE NA CAPTAÇÃO

Leandra conta que imaginava estrear na direção, uma vontade antiga, com uma obra de ficção. “Pensando que convivo com as personagens do filme há anos, e tem muito da minha biografia ali também, decidi fazer um documentário”.

Mas a realização não foi fácil. Com a dificuldade em conseguir patrocínios, a atriz partiu de início para um crowdfunding (espécie de financiamento coletivo).

“Quando começamos a captar em 2009, ainda não era um tema muito falado. Há pouco tempo que esses temas começaram a pipocar positivamente, com muita coisa sendo discutida sobre sexualidade, identidade de gênero”, evidencia. “O filme fala de temas que ainda são tabus de alguma forma: travestis, envelhecimento”.

PROJETOS AUTORAIS

A experiência na direção foi gratificante, e a carioca diz que não vai parar. “Sou feliz como atriz, mas sempre quis dirigir. Vou continuar, mas na direção os projetos têm que ser como ‘Divas’, mais autorais”, afirma Leandra, que faz suspense: “Já tenho um próximo, mas ainda não posso adiantar nada”.

A atriz garante que no papel de diretora é incansável. “Sou muito virginiana, detalhista, perfeccionista... Meu trabalho passa muito por ir até o limite. Vou até onde posso ir”.
Numa fase extremamente ativa — atriz, autora, produtora, diretora e administradora do Teatro Rival —, Leandra ainda vive intensamente a recente maternidade (no fim do ano passado, ela e Alê Youssef conseguiram concluir o processo de adoção de Julia, de 2 anos). “Ser mãe é transformador”, diz. “ Não sei se ela vai querer ser artista ou se vai querer continuar isso tudo. Não quero influenciar tanto, cada um tem uma missão”. 

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